Portugal – o que se diz vs what is written

Todas as imagens estão no prospecto de investimento do IGCP.

O grande benefício de ler os prospectos de investimento que o Estado português publica regularmente, é que estes permitem ver com menos fantasias e mentiras políticas aquilo que o governo realmente pensa sobre o país. Ao mesmo tempo, aquilo que cá dentro se diz de peito cheio, lá fora tenta-se escrever com alguns floreados. A necessidade de investimento estrangeiro abre a veia honesta e fecha a veia desonesta, mas também esvazia o peito. É o espectáculo triste que acontece nas traseiras dos holofotes.
O que o governo pensa sobre o estado do país não se sabe nos debates parlamentares, mas sim no que depois o IGCP escreve em inglês aos mercados para conseguir o seu dinheiro para cobrir a dívida. Agora, 6 meses depois da pandemia nos cair em cima, o IGCP voltou a publicar um prospecto, o primeiro pós-covid. São 50 páginas de gráficos coloridos e alguns conceitos inúteis, como o de PIB potencial. O que tem afinal o governo a dizer sobre Portugal?

Dito cá dentro, escrito lá fora

Sobre a nacionalização da TAP? Pois, lá fora não é nacionalização, é Other capital expenditures accomodates financial support to TAP Air Portugal. Uma construção perfeita de palavras para dizer o quase oposto do que é a nacionalização da TAP.

Cá dentro apela-se a aumentos de salário no privado e acena-se com aumentos no Salário Mínimo Nacional de 10€. Lá fora garante-se que Portugal tem os custos com o Trabalho contidos. Seria bom a discussão pública ter isto presente, quando o governo fala em aumento no poder de compra. Na realidade, os portugueses continuam a ser vendidos como os baratinhos da Europa.

Cá dentro diz-se ‘ABAIXO as comissões bancárias’. Lá fora faz-se reclame dos lucros dos grandes bancos portugueses (vá, para o Novo Banco fala-se apenas no Net interest income para ficar positivo).

Como Portugal está

Sim, o Turismo tornou-se imprescindível para Portugal e está morto.

A taxa de poupança em Portugal continua a ser baixíssima. Imaginando um salário bruto de 1.500€ (que não são muitos em Portugal1), isso equivale a uma poupança mensal de cerca de 100€ e um rendimento disponível de cerca de 50€.

O mal-parado bancário em Portugal entrou para esta crise gigantesca muito acima da média europeia. Os bancos portugueses iniciam esta travessia infernal já com uma posição má. Vá, a Itália está pior.

Que interesse tem mostrar a evolução do imobiliário em Portugal em Setembro de 2020, mas apenas com dados até ao final de 2018? Talvez 2019 não seja interessante.

Buzzwords


1 Quem ganhe 1.500€ brutos em Portugal, já estará próximo do 70º percentil, ie apenas 30% ganham mais.

in Expresso 16/11/2019

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