Por que continuamos a ser governados pelos velhos?

Na entrevista a António Barreto conduzida por José Manuel Fernandes ao Observador, este último colocou a questão “por que é que nós não conseguimos [que os mais jovens] participem na vida pública?”. A resposta de António Barreto é interessante e vale a pena ouvir, mas incompleta. Responderei, como alguém com menos de 35 anos neste país de velhos.

Esta ideia de uma nova geração rasca que se esconde e não aceita a sua responsabilidade cívica é comummente aceite. Diz-se que somos a geração que vive em casa dos pais para lá dos 30, a geração que gozou de facilidades educativas a grande custo do país, a geração virada para o Mundo e capaz de o conquistar. Agora que Portugal se prepara para uma das maiores crises de que há memória, olhamos para o parlamento e vemos velhos. No governo estão os velhos dos partidos. Que falha poderá explicar esta história da geração mais bem preparada e o país gerido pelos mesmos de há décadas?

Imaginemos que Portugal é um autocarro. Muitos dos governantes actuais entraram na cena política no final da década de 70 e início da década de 80. O PS e PSD foram trocando entre si o lugar de condutor deste autocarro comum. Vivíamos nos tempos da consciencialização política da população. Poucos de abstinham de votar em quem queriam como condutor. Esta era uma posição com consequências sérias para a vida do cidadão. O desemprego aumentava se o condutor não soubesse guiar bem. Se entendermos o capital como um combustível, a sua saída contribuiu para a inflação e assim ao mau-funcionamento do motor. As constantes desvalorizações do escudo foram extremamente prejudiciais aos passageiros deste autocarro.

O confronto político era feroz e muitas vezes se acusaram mutuamente de serem mais partidários que patriotas. É curioso como já nem existe esta acusação.

Em 1977, os partidos condutores pediram para aderir a um clube em que cederiam as responsabilidades da condução a troco de benesses financeiras e económicas. Em 1986 concretizou-se esta adesão. Desde então, os nossos condutores continuam a trocar entre si o lugar, mas agora dizem aos passageiros ‘isto é bom, porque no clube a que agora pertencemos têm dinheiro’. Podemos passar por buracos gigantes na estrada, mas acreditamos que é melhor ter alguém de fora a guiar-nos que ter os nossos condutores com soberania para tal.

Será que os jovens de hoje se vêem sem acesso ao volante, porque a geração anterior vendeu esse volante? Será que podemos querer uma população jovem activa politicamente, quando na verdade as legislativas portuguesas são hoje uma espécie de autárquicas da Europa, sem qualquer poder de decisão? Será que quando ouvimos ‘os jovens não querem tomar as rédeas à carroça’, não seria mais apto dizer ‘hipotecou-se a carroça, o cavalo está magro e precisamos de seguir as instruções da UE para manejar as rédeas’?

Esta inutilidade do governo português é clara quando as medidas do governo são defendidas ou aceites com ‘é um plano da União Europeia’. Somos jovens, mas vemos que hoje qualquer governo de Portugal não tem influência para melhorar o seu rumo e apenas pode piorar.

A acrescentar à perfeita inutilidade do governo português, cuja grande parte da soberania as gerações anteriores venderam, temos a corrupção disseminada e um elevador social que parou no último andar e nós os jovens cá em baixo. Para mais o autocarro tem o peso de uma dívida monstruosa sobre si, como se fossem toneladas de caixotes no tejadilho, e as rodas mal aguentam tamanha carga. Os passageiros ouvem o ranger constante do metal que ameaça desabar sobre si. Para lembrar o condutor desta carga, foi posta uma faca no centro do volante. Quanto maior a carga, mais próxima a faca está do condutor. Se o autocarro continuar um caminho macio, tudo bem. Nada de curvas bruscas, nem mais buracos!

Ora se o volante do autocarro foi vendido, os supostos condutores não escondem os problemas de corrupção, os passageiros continuam pobres e alheados e agora vem aí um buraco terrível capaz de engolir o autocarro inteiro, o que podem os jovens fazer? Lutar pelo poder de nos sentarmos ao volante e confirmar que não o podemos virar sem permissão europeia? Lutar pela soberania portuguesa e maior independência? Como o faríamos se o autocarro está a cair de pôdre e a sua força económica foi devastada ao longo de décadas?

Sim, vêem-se poucos jovens na vida política activa em Portugal. Talvez estejam emigrados, já que este autocarro foi conduzido para os políticos poderosos portugueses e hoje é só uma atracção turística para inglês ver.

One thought on “Por que continuamos a ser governados pelos velhos?

  1. Talvez não se vejam muitos jovens nos dois maiores partidos mas no BE, CHEGA, PP e outros que se estão a iniciar na vida política, vejo muitos jovens. Talvez a juventude do PS e do PSD tenha que esperar que os mais velhos façam carreira, alcancem objectivos políticos e pessoais e só depois saiam de cena para os mais jovens singrar.
    Não consigo imaginar um jovem de 30 anos a chegar a líder da CDU. Podia ter um futuro maravilhoso e ser um talentoso político mas saltaria por cima dos “velhos”? Nunca na vida.

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