Simplesmente resignação

Ao entrarem no mundo do trabalho, vindos da euforia de pensamentos e objectivos da adolescência, muitos são os que tropeçam. É difícil lutar pelos nossos sonhos quando nos temos de levantar de manhã cedo e temos de ouvir a estúpida do escritório todos os dias. Ainda há pouco sonhávamos ser escritores, pensadores, filósofos, músicos, viajantes e agora estamos num escritório à frente de um grande ecrã e a estúpida ao nosso lado está a comprar sapatos no ebay.

Lutamos ainda assim. É preciso um salário e isto é só um emprego, não seremos uns robots como os nossos pais. Continuamos a tropeçar e a cair nas reuniões sem utilidade, nas conversas vazias de escritório, nas falsas amizades assentes somente na proximidade física. Vemos, porque não somos estúpidos, que tudo são politiquices de escritório e recusamo-nos a ser iguais. Se temos de ter um emprego, então que façamos algo de útil com o nosso trabalho, o nosso esforço. Se este é o caminho necessário para podermos chegar aos nossos objectivos da adolescência, então que o cumpramos com brio.

Ninguém quer saber. Trabalhamos mais e afinal é em vão. Podemos apenas fazer o mínimo e recebemos o mesmo que o nosso colega resignado. Começámos por sentir pena daquele colega e agora surge uma compreensão pelo estado amorfo dele. Detestamos compreender o colega que desprezávamos. Nós não somos assim. Nós somos mais. Isto é apenas um emprego. Querem que a gente sorria? Certamente, entremos nas politiquices e deixemo-nos seguir a onda.

Descansaremos e assim poderemos concentrar-nos nos nossos sonhos. Assim até é melhor, não é? A receber um salário e sem ter de pensar? Óptimo! Sonhámos com isto em putos e afinal é-nos logo dado no início. Lutamos fora-d’horas pelo que acreditamos ser o nosso caminho. Escrevemos. Não, olhamos para as páginas em branco e o que escrevemos detestamos por ser comida mastigada. Voltamos a tentar e escrevemos sem parar, na esperança de olhando para trás venhamos a descobrir alguma pérola. Nada.

A culpa é da estúpida. A culpa é do ecrã enorme no emprego. A culpa é das 8h diárias vendidas a preço de saldo. A culpa é dos nossos pais. A culpa é desta nossa insatisfação permanente. Quem disse que tínhamos de ser escritores filósofos? O nosso colega resignado é mais miserável que nós? Não. Ele entendeu as cartas que lhe foram dadas e aceitou o jogo. Essa será a única maneira de ser feliz: aceitar.

Por que tem tudo de ser tão complicado? Por que temos de ser solitários neste Mundo de vida empacotada e vendida como se fosse um brinquedo? Por que temos de pensar nas politiquices de escritório? Por que temos este fogo cá dentro que nos quer livres? Todos aceitam menos nós. De que vale sermos o D. Quixote? Todos têm filhos e compram casa e quem somos nós para criticar?

Antes pensávamos que não têm tempo para os filhos e pagam demasiado pelas casas, mas o que sabemos nós que somos insatisfeitos e os outros felizes? Andamos tão preocupados em ser autênticos que talvez nos tenhamos perdido nas complicações. Resignação é apenas uma forma de simplificar a vida.

Ter um filho e pagar hipoteca enquanto se vive insatisfeito profissionalmente são não só formas de cortar a possibilidade da realização pessoal, mas também de canalizar os recursos para o filho e assim dar-lhe a ele o ónus de atingir os seus sonhos.

Putos nascem de pais que não se realizaram pessoalmente e que não os educam porque é para isso que servem os infantários, as escolas, os ATL, os amiguinhos, a TV. Casas são compradas com créditos de 40 anos onde se paga o dobro do valor inicial em juros e isso aceita-se. A culpa é dos bancos, dos chefes e dos governantes. Nas eleições a gente lixa-os.

Continuas insatisfeito e agora com um filho que não conheces, uma esposa que deixaste de conhecer e uma dívida monstruosa.

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