Camboja e a Teoria do pêndulo

Haing S. Ngor nasceu na antiga Indochina Francesa em 1940, no que hoje é o Camboja. Escreveu um dos livros que mais me marcou como homem – Survival in the killing fields. Neste livro, Ngor conta a sua história, bem como a do Camboja desde os tempos do poder colonial francês até aos comunistas do Khmer Rouge (Khmer Vermelho em português) e ainda depois sob o desprezo e a destruição dos vietnamitas.

Século IX a 1945 – História do Camboja

Do Império Khmer até à Indochina francesa

Quando Ngor nasceu, o Camboja já era um protectorado dos franceses desde 1863, logo há 77 anos. A História do Camboja até esta data é marcada por uma subjugação constante a poderes estrangeiros, que foram rodando entre si. Temos de recuar até ao século IX para termos um Camboja independente e próspero.

900 – Império Khmer – link

Depois de ganhar a sua independência em 802 de Java, Indonésia, o Império Khmer surgiu no que hoje é o Camboja. Até ao século XIV, este império continuou a existir e expandiu-se através de conquistas. Já no século X, o império Khmer tinha conseguido afirmar-se como o mais poderoso do sudeste asiático, com uma expansão territorial e cultural enormes.

A capital do império Khmer era Angkor. No seu auge, estima-se que a capital pudesse acomodar 1M de pessoas, o que faria desta a maior cidade do Mundo na altura. Hoje ainda se podem ver várias construções que lembram os tempos da potência Khmer, especialmente o templo Angkor Wat. Este templo é bastante acarinhado pelos cambojanos e é o grande chamariz para os turistas.

Quando o reino siamês invadiu e saqueou o império Khmer no século XIV, já o império estava em declínio. Existem várias teorias para o porquê deste declínio, desde conflitos sociais, religiosos, a peste negra, etc. O que é mais certo é que a partir do século XIV, o Camboja entrou em várias guerras com o reino siamês e com o Vietname. Na verdade, as guerras com o Vietname eram na maioria com o território Annam, mas por simplicidade agrupo os territórios Tonkin, Annam e Cochichina como Vietname. Em 1594, o reino siamês invadiu e destruiu a capital cambojana de então, Longvek. Depois de Angkor ter sido saqueada pelos siameses, uma nova capital foi escolhida, Longvek, precisamente para evitar outro saque do reino siamês. Quase 500 anos depois, sinto-me à vontade para dizer que essa mudança de capital foi desnecessária.

Até ao século XIX, o Camboja não se conseguiu erguer face aos seus vizinhos e existiu como o peão entre o Vietname o Reino Siamês. Ora o Camboja era controlado pelos siameses e invadido pelos vietnamitas, ora era controlado pelos vietnamitas e invadido pelos siameses.

Em 1863, o rei Norodom do Camboja nomeado pelo reino siamês procurou sair deste triângulo infernal e obter a protecção o império francês. O reino siamês aceitou, não sem antes declarar as províncias cambojanas de Battambang e Siem Reap como siameses. Depois de várias campanhas coloniais, o Camboja foi integrado numa união de colónias denominada de Indochina Francesa, da qual faziam parte o Vietnam (Tonkin, Annam, Cochinchina), Laos e Guangzhouwan (actual território chinês).

A Indochina era considerada por França como uma colonie d’exploitation. Os bens explorados foram o chá, arroz, café, pimenta, carvão, zinco, madeira, borracha, entre outros. No início do século XX, a economia da Indochina cresceu bastante com a necessidade de borracha pela indústria automóvel. Para alimentar as suas fábricas de borracha, a Michelin investiu na colónia. Também para capitalizar este recurso, a França investiu na infra-estrutura da sua colónia, especialmente em meios de transporte ferroviários e marítimos. Em 1937, o porto de Saigão, capital da Indochina, já era o sexto mais movimentado do Império Francês1. Na citação abaixo, Alison Finch conta-nos como a França entrou na Indochina.

By 1815, however, most of these territories had been ceded to Britain and other nations as the result of French military defeats. France then proceeded to build up a second colonial empire in Africa, Indo-China and Oceania. […] southern Vietnam was annexed in 1859, Cambodia was made a protectorate in 1863. […] In 1883, France without provocation shelled the imperial city of Hue in North Vietnam. The Emperor surrendered to the French in order to prevent further slaughter of his innocent people. […]

Settlers from France numbered one-and-a-half million, most of them coming to the North African territories and particularly Algeria (where they became known as pieds noirs, ‘black feet’, from the colour of the leather boots they wore). Countries where white French people had settled were called ‘colonies de peuplement’ (populating colonies) whereas the others, nakedly, were known as ‘colonies d’exploitation‘, that is to say colonies for commercial development.

in French Literature: A Cultural History, Alison Finch, 2010
Comparação dos territórios da metrópole francesa com a Indochina – The True Size Of

Apesar da importância económica que a Indochina já tinha para o Império Francês, o número de franceses nativos a viver na colónia era irrisório. Em 1937, cerca de 42m franceses nativos viviam na Indochina. No mesmo ano, a população nativa da Indochina era de >23M, ou seja, mais de metade da população da metrópole francesa. Em comparação, a Argélia – talvez a mais importante colónia francesa na altura – tinha somente 6,5M de habitantes em 1936. Esta grande disparidade entre franceses e a população nativa era superada pelos assimilados. Pela assimilação da cultura francesa era possível a um nativo indochino atingir cargos com importância. A Indochina era 36% maior em território que a metrópole francesa.

Indochina na Segunda Guerra Mundial

A Queda de França perante a Alemanha Nazi em 1940 deixou a Indochina vulnerável. Já sem a potência imperial francesa capaz de defender a colónia, outras potências nascentes olhavam para a Indochina com ambições de domínio.

No dia 21 de Junho, Hitler montou o espectáculo de se sentar mesma cadeira da mesma carruagem de comboio onde em 1918 a Alemanha se tinha rendido à França, para agora aceitar a rendição de França. Passados 3 meses, o Japão atacou o norte da Indochina em 4 dias para cortar o fornecimento de armas e mantimentos à China, com quem estava em guerra desde 1939. Este ataque vem depois de várias concessões de soberania francesas, como o ultimato japonês de 19 de Junho para cortar quaisquer rotas comerciais com a China pela Indochina; aceitação da inspecção japonesa do governo da colónia; aceitação do livre-trânsito de tropas japonesas pelo território, bem como uso das instalações militares e portuárias. Apesar de se ter submetido aos vários ultimatos, a entrada de tropas japonesas na Indochina levou a confrontos com os franceses.

1940 – Entrada japonesa em Lang Son, norte do Vietname – link

Com esta cedência francesa, a Indochina ficou sob o comando japonês. O grosso das tropas japonesas não chegaram a invadir o território e apenas uma parte foi destacada para o norte, perto do inimigo chinês. A entrada de um grande número de tropas japonesas veio a acontecer com a invasão nazi da União Soviética em Junho de 1941. Com isto, o Japão entendeu que o seu inimigo soviético estaria ocupado e tratou de enviar 140.000 tropas para o sul da Indochina de onde lançaria um ataque à Indonésia, colónia holandesa. Em 1941, a Tailândia, aliada do Japão, invadiu e anexou um terço do Camboja.

O controlo japonês da Indochina é feito pela supervisão do governo francês da colónia. Ou seja, os japoneses mantiveram os franceses na administração da colónia e estes implementaram os objectivos dos japoneses. Isto durou até quase ao fim da Segunda Guerra Mundial com a derrota japonesa. Em Março de 1945, os japoneses fizeram um golpe de estado contra o governo francês da colónia, expulsaram os franceses da administração pública e procuraram ganhar o apoio das populações. Os japoneses impuseram as declarações de independência do Vietname, Camboja e Laos e tornou-os em estados-fantoche (puppet states).

Esta invasão japonesa e subsequente mudança de regime foi possível pela destruição do sistema colonial francês. As forças francesas sofreram imensas baixas (15m prisioneiros de guerra e mais de 4m mortos). O exército, bem como os nativos franceses tiveram de se refugiar no Laos e até na China, onde foram torturados. Com isto, o governo francês da colónia foi desmantelado.

Quando os japoneses fizeram o golpe de estado, já o Vietname sofria há 6 meses com uma fome que pode ter levado a 2M de mortes. Os Việt Minh conduziram a sua própria resistência contra os japoneses, negando qualquer apoio aos franceses. A resistência comunista e vietnamita era liderada por Ho Chi Minh desde 1941, quando tinha 51 anos e apoiada pela OSS (Office of Strategic Services), agência norte-americana embrionária da CIA. Toda a história de Ho Chi Minh é maior que a vida, por isso, pelo meu bem, não vou tentar contá-la.

Quando o Japão perdeu catastroficamente a guerra com os EUA, perderam imediatamente o controlo da Indochina e deixaram a porta aberta à França reerguida para reocupar a antiga colónia. No entanto, 5 anos tinham passado e o sistema de governo estava desfeito, bem como a economia indochina. Politicamente, o afastamento de Son Ngoc Thanh da posição de primeiro-ministro cambojano e posterior prisão domiciliária em França levou ao aparecimento de um movimento independentista, Khmer Issarak, que se refugiou e teve apoio da Tailândia. Vários outros movimentos anti-ocupação francesa já existiam e viriam a crescer. Alguns dos mais importantes independentistas e revolucionários até se organizaram em Paris.

1945 a 1954 – Independência e Primeira Guerra da Indochina

Ngor desde a infância até ser um médico em ascensão

A história de Ngor começa por volta desta altura. Filho de pai chinês e mãe Khmer, a sua infância é contada pelos olhos de uma criança irritadiça e com pouca paciência. Ainda criança, Ngor foi viver com e como os monges. Um costume no Camboja. O seu pai era bastante trabalhador e empreendedor. Tinha um negócio de transporte de mercadorias por camiões, principalmente gasolina, e uma loja de víveres. Em 1964 conseguiu comprar uma serraria e fez dela um sucesso. Contratou pessoal para cortar árvores e comprou camiões para as transportar para a sua serraria.

Ngor teve uma relação difícil com o seu pai, que desaprovava o seu temperamento irascível. Apesar da sua vivência com os monges, Ngor não conseguiu nunca alcançar a sua paciência. Para Ngor, o sonho do seu pai era ser um comerciante rico, ter os seus filhos a trabalhar para si e netos no colo para lhe mimar a velhice.

No entanto, Ngor não queria ser mais um a viver na sombra do pai, como o seu irmão, e quis provar-lhe que tinha valor. Depois de alguma indecisão, opta por estudar medicina e consegue formar-se como ginecologista e obstreta.

Os primeiros anos como jovem adulto são bastante difíceis por ter de trabalhar numa clínica privada, num hospital, estudar e ainda ajudar o pai com a contabilidade na serraria. Ngor ajuda-o nisto, porque o seu pai não consegue ler francês. Por aqui, Ngor entendeu que o seu irmão, Pheng Huor, estava a roubar ao seu pai e aos seus futuros herdeiros. Pheng Huor trabalhava directamente com o pai e tratava da gestão dos negócios do pai.

Num clima familiar bastante tenso, é convocada uma reunião familiar onde Ngor expõe a transferência de nome dos bens do negócio do pai para Pheng Huor. Ngor defende os seus irmãos mais novos e oferece a Huor a sua parte da herança em reconhecimento do seu trabalho, desde que ele devolva os bens para o nome do pai. A vergonha familiar com que Ngor contava para obrigar Huor a devolver o que tinha roubado não funciona. Huor defende-se que fez o fez para o bem dos seus filhos, que mereciam ter algo, caso lhe acontecesse alguma coisa. Aliás, ele tinha trabalhado muito e merecia ser recompensado. Para mais, o pai era chinês e assim excluído de certos negócios no Camboja, logo tinha de ser em nome do irmão.

O pai não interveio na reunião. A vergonha de ter um filho que o roubava era grande para ele. Para resolver isto, passado um mês convocou a sua própria reunião e distribuiu a sua herança em vida.

A par de uma vida de grande esforço para singrar, Ngor relata a corrupção generalizada, a que chama de cidade de bonjour. Os camionistas da serraria do seu pai roubavam a gasolina dos camiões e substituíam por água, até que os camiões avariavam. Os soldados mandavam os camiões parar e exigiam um suborno. Os comunistas no interior do país raptavam as pessoas e exigiam um resgate. O pai de Ngor teve de ser resgatado por Huor.

Depois de anos difíceis, Ngor começa a desfrutar do que trabalhou. Da herança do pai recebe um camião de transporte de gasolina. Ngor faz uma parceira com Huor para cooperarem no negócio do transporte de gasolina. O negócio corre bem e passado pouco tempo já tira lucro deste negócio. Mais as suas poupanças dos trabalhos como médico, Ngor consegue comprar parte do capital da clínica onde trabalha.

A vida de Ngor é colorida por Huoy, a sua namorada envergonhada. Conheceram-se quando Ngor dava explicações a alunos do liceu e Huoy foi uma das suas explicandas. O namoro acontece, embora sem Ngor esconder que ainda tinha aventuras, especialmente com as clientes da clínica ginecologista. Um dia, quando Ngor está em casa de Huoy, ela agarra uma faca e ameaça que o mata. Ngor apercebeu-se do amor que Huoy tinha por ele e a força que ela teve de chamar para ultrapassar a sua timidez e lhe apontar uma faca. Ele deixou-se de aventuras e dedicou-se a Huoy.

Huoy ajudava Ngor nos negócios do transporte de gasolina. Por ser mais calma, Huoy conseguia distinguir os bonjour que tinham de ser aceites e os que se podiam recusar. Também era Huoy quem tratava da contabilidade e quem dava ordens aos empregados. Por isto, Ngor confessa a sua profunda admiração por Huoy.

Além do negócio do transporte de gasolina, Huoy era professora na universidade, o que a juntar aos rendimentos de Ngor na clínica já proporcionava aos dois uma boa vida. Ele conta-nos como conduzia por Phnom Penh num Mercedes preto e todas as noites ia jantar fora com Huoy. Oferecia-lhe vestidos, brincos de diamantes e pagava a renda do apartamento de Huoy onde vivia com a sua mãe. A grande vontade dos dois era coroar esta vida com um casamento. No entanto, o pai de Ngor não dava a sua benção a este casamento. Para o apaparicar e conquistar, Huoy sacrificava as suas horas de almoço para levar bolinhos e fazer massagens ao pescoço do seu sogro renitente. Este era um homem rico e estava habituado a estes comportamentos, por isso continuou a ignorar Huoy.

O conflito transborda do campo para Phnom Penh

Enquanto a vida de Ngor e Huoy caminhava alegremente e os seus planos se vinham a realizar, cerca de 25 anos tinham passado desde que o Japão tinha sido expulso da Indochina e a França reocupado. O regresso francês após a segunda guerra mundial foi negociado com os Estados Unidos e com o Reino Unido. Apesar da doutrina norte-americana de descolonização, a morte de Roosevelt antes do fim da guerra deu algum espaço aos impérios coloniais europeus. Além disso, o inimigo comunista já se mostrava na União Soviética que saía poderosa da guerra. A França convenceu assim o Ocidente que seria melhor uma Indochina francesa que comunista. Ho Chi Minh era mais temido que a França colonial.

1941 – Coroação de Norodom Sihanouk

No Camboja pós-Segunda Guerra Mundial, o rei era agora Norodom Sihanouk. Sihanouk era o neto materno de Norodom, o rei que em 1863 acordou com a França um protectorado no Camboja. O seu avô morreu em 1904 e irmão do seu avô, Sisowath, foi o rei seguinte. Com 19 anos, o jovem Sihanouk tomou o reino após a morte de Sisowath em 1941. Esta escolha de rei foi aceite pelos franceses e pelos japoneses.

Embora a história do Camboja esteja recheada de personalidades fundamentais para compreender o que aconteceu, Sihanouk é talvez a mais importante. O jovem rei soube usar o golpe de estado japonês em 1945 para declarar a independência cambojana. Apesar de ter sido uma independência que durou meros meses, foi suficiente para a população lhe ficar reconhecida.

Já sob o controlo francês, Sihanouk teve de caminhar pelo trilho impossível de respeitar o desejo ardente de independência da sua população e o poder colonial francês, que poderia a qualquer momento destituí-lo. Estima-se que em 1954, os revolucionários do Khmer Issarak controlavam metade do território cambojano, especialmente no interior rural. Os Issarak eram fortemente apoiados pelos vietnamitas em equipamento e mesmo em homens para combater.

Em 1946, os franceses autorizaram uma eleição no Camboja para uma nova Consultative Assembly que poderia aconselhar o rei no desenho da nova Constituição. Formaram-se dois partidos: o Partido Democrata e o Partido Liberal. Nos democratas estavam os independentistas, revolucionários do Khmer Issarak e simpatizantes com os métodos violentos dos Việt Minh. Os democratas entendiam que o rei não estava disposto a enfrentar os franceses e viam-no como um inimigo. Os liberais contavam com os cambojanos conservadores, que procuravam continuar um qualquer tipo de relação benéfica com a França.

Os democratas venceram esta eleição com quase 75% dos votos. A nova Constituição foi promulgada por Siahnouk em 1947, apesar de esta restringir bastante os seus poderes reais. No final de 1947 houve novas eleições para a assembleia e novamente venceram os democratas. Contudo, este partido tinha problemas de desunião interna e não tinha um líder.

Em 1948 Sihanouk dissolve a assembleia e ratifica um acordo com os franceses para uma semi-independência. A França retém o controlo do sistema judicial, financeiro e alfandegário. As forças militares francesas continuam a ter acesso ao território. Em 1950, o Camboja é reconhecido pelos países do Ocidente e não pelos comunistas.

Se recuarmos 5 anos, lembramos a ideia ocidental de apoiar a reocupação francesa da Indochina. Esta partia do pressuposto que os franceses conseguiriam instaurar um governo forte capaz de fazer frente aos revolucionários comunistas. Isso revelou-se extremamente difícil e os conflitos no norte do Vietname alastraram ao Camboja. Tal como na história antiga da região, as fronteiras continuaram a ser porosas. Os comunistas vietnamitas refugiavam-se no Camboja quando se viam atacados no Vietname, o que criava distúrbios e fortalecia os revolucionários cambojanos, que se representavam no Khmer Issarak e no Partido Democrata.

Contudo, o que ajudou verdadeiramente a fortalecer a rebelião no interior rural do Camboja foi a pobreza extrema. Por volta de 1970, Phnom Pehn era uma cidade soterrada em novos habitantes. A população inicial de 600m a 700m tinha duplicado e mantinha um crescimento exponencial. Estes novos habitantes chegavam do interior e de outras cidades mais pequenas. A miséria era depressiva, com barracas a brotar rapidamente. Esta miséria humana na capital trabalhava por salários indignos e pedia esmola nas ruas. O pior, a corrupção era generalizada. Ngor conta-nos como o exército cambojano não tinha equipamento. Muitas vezes nem armas tinham para combater. Os homens escondiam-se para não terem de ser alistados para o combate lá longe na selva com comunistas. Uma técnica que o exército usava era estacionar um camião militar à porta de um cinema. Quando o filme acabasse e os homens saíssem, eram levados pelo camião e não se voltavam a ver.

O combate era incessante, mas para quem vivesse na cidade afrancesada de Phnom Penh, os comunistas estavam distantes. Ngor fala desta ideia de que os comunistas estavam lá longe e Phnom Penh era uma cidade pujante a crescer imenso.

Depois da semi-independência do Camboja, Sihanouk governou directamente o país por decreto. Nas novas eleições para a assembleia, os democratas voltaram a ganhar. O clima de confronto entre os democratas e o rei era evidente e manifestações contra o rei eram organizadas no interior. O governo democrata já se recusava publicamente a obedecer a Sihanouk. Em 1952, Sihanouk demite o primeiro-ministro democrata e ele próprio ocupa o lugar, até nomear outro líder democrata que entretanto tinha perdido o apoio maioritário do seu partido.

Sentindo o país à beira do descontrolo, Sihanouk pede a França que dê a independência total ao Camboja. Em carta dirigida ao presidente francês Vincent Auriol, Sihanouk argumenta que crescia na população um sentimento anti-França e que a independência tinha de ser dada o quanto antes. França recusa.

1954 – Perda de território para para os Việt Minh incluindo no Camboja – link

Sihanouk mostrou-se no Canadá e nos Estados Unidos, onde participou em programas de rádio para defender a independência cambojana. Não se esqueceu de avisar o Ocidente que no Camboja também havia um problema com os comunistas, tal como no Vietname.

Em Novembro de 1953, a França deu a independência ao Camboja. Neste ano, a França já estava há 7 anos na Primeira Guerra da Indochina contra os comunistas vietnamitas. Uma guerra que custou mais de 75m mortos nas forças francesas e foi terrível para a moral gaulesa. 9 meses depois do Camboja conseguir a sua independência, os Việt Minh conseguem o impossível: obrigar o império colonial francês, financiado pelos EUA, a render-se. De notar que os Việt Minh também tinham amigos na União Soviética e na China.

France was increasingly unable to afford the costly conflict in Indochina and, by 1954, the United States was paying 80% of France’s war effort, which was $3,000,000 per day in 1952.

in Wikipedia

A história da Batalha de Dien Bien Phu de Março a Maio de 1954 ainda hoje está na memória colectiva dos franceses e vietnamitas. Nesta batalha, as forças francesas viram-se posicionadas em terreno baixo, encurraladas pelos Việt Minh, que ocupavam posições superiores nas montanhas circundantes. Os vietnamitas conseguiram o feito inimaginável de transportar artilharia pesada pelas montanhas, por lamaçais e quase só com força humana. Escavaram também túneis nas montanhas.

Vietnamitas a transportar artilharia pesada pelas montanhas – Youtube

Quando começaram a atacar os franceses em baixo, estes não tinham forma de ripostar, porque a artilharia estava escondida nas montanhas. Além disso, as armas anti-aéreas dos vietnamitas impediram qualquer contra-ataque aéreo francês ou entrega de mantimentos aos franceses. Este inferno durou 2 meses com o barulho constante da artilharia, das explosões e dos gritos dos franceses a morrer. O coronel Charles Piroth suicidou-se com uma granada.

Batalha de Dien Bien Phu

A Primeira Guerra da Indochina foi desastrosa para a França, que se viu num buraco negro militar e com um conflito político interno. Uma grande parte da população francesa era contra a guerra. Com a derrota, a França abandonou para sempre a Indochina.

1955 a 1975 – Segunda Guerra da Indochina

Estados Unidos entram na Guerra do Vietname

Uma das condições que os franceses impuseram para a sua rendição na Primeira Guerra da Indochina foi a divisão do Vietname em 2. O Vietname Norte comunista com a capital Hanoi e o Vietname Sul com a capital Saigão. Esta condição foi quebrada assim que os franceses saíram da Indochina. O Norte invadiu o Sul e os Estados Unidos entraram directamente no conflito em defesa do Sul.

Para o Camboja isto significou fazer fronteira com um país novamente em guerra. A postura oficial de Sihanouk era de neutralidade e autorizou o uso do território cambojano pelos comunistas vietnamitas por um lado e o bombardeamento de posições vietnamitas pelos Estados Unidos por outro.

Golpe de estado de Lon Nol

Esta ambiguidade resultou num grande número de mortes cambojanas que se viram arrastadas para um conflito externo. A insatisfação contra o rei voltava a crescer. Ainda assim, Sihanouk aguentou este estado até 1970, quando o seu antigo aliado, o general Lon Nol fez um golpe de estado e assumiu o poder. Tendo em conta que Lon Nol exigiu a imediata retirada dos combatentes vietnamitas do Camboja, é teorizado que este golpe de estado teve o apoio secreto norte-americano.

O governo golpista viu-se atacado por Sihanouk, que instigou os seus apoiantes à luta contra Lon Nol. Também os comunistas cambojanos que já combatiam o governo no interior se viram impelidos pelos vietnamitas a aumentar a resistência.

Nesta altura, uma nova facção dos comunistas cambojanos ganha relevância. Do aglomerado heterogéneo de ideias e causas que era o Khmer Issarak, saiu um novo grupo chamado Khmer Rouge. Este era liderado por Pol Pot e tinha origens na vida universitária francesa, onde alguns dissidentes comunistas cambojanos estudaram.

A luta contra o governo de Lon Nol foi largamente travada pelos Viet Congs2, com apoio do Khmer Rouge e dos apoiantes de Sihanouk. Lon Nol contou com os bombardeamentos massivos dos norte-americanos aos alvos comunistas no interior do Camboja.

Documents uncovered from the Soviet archives after 1991 reveal that the North Vietnamese attempt to overrun Cambodia in 1970 was launched at the explicit request of the Khmer Rouge and negotiated by Pol Pot’s then second in command, Nuon Chea.

in Wikipedia

O conflito continuou e, a partir de 1973, o Khmer Rouge passa a assumir a maior parte da luta contra o governo de Lon Nol. O exército cambojano não se vê capaz de combater o Khmer Rouge, apesar de terem o apoio norte-americano. A corrupção relatada por Ngor está totalmente espalhada pela população em Phnom Penh. Nas feiras de rua vendem-se uniformes militares, que muitos soldados não têm. As rações privilegiadas de arroz que alguns militares recebem, são depois vendidas no mercado negro.

Ngor e a vontade de não ver

Em 1975, Lon Nol governa o Camboja há 5 anos. Durante estes anos, o Khmer Rouge foi conseguindo ganhar terreno às forças do governo apesar da grande perda de vidas. Por vezes já se viam combatentes com roupas miseráveis e os pés sujos a serem mortos pelo exército nos arredores de Phnom Penh.

A serraria do pai de Ngor tinha sido tomada pelos guerrilheiros. Muitas pessoas fugiram por avião, com o aeroporto num frenesim. Os comerciantes transferiram o seu ouro para fora do país. A família de Ngor pediu-lhe para pegar em Huoy em sair do Camboja. “Tu és rico, falas francês, és médico. Podes começar a tua vida noutro lado”, diziam-lhe. Ngor não quis ver. Mesmo quando passava noites inteiras a cuidar dos soldados feridos no hospital, Ngor não quis ver.

Phnom Penh caiu no dia 17 de Abril de 1975. Saigão caiu no dia 30 de Abril de 1975.

1975 até hoje

O sofrimento e a perseverança de Ngor

Haing S. Ngor

Mais de 4m palavras e quase 1200 anos depois chegamos ao horror do Khmer Rouge. Quando comecei a escrever este texto, apenas queria falar de Ngor pelo grande impacto que teve em mim. Li este livro quando tinha 22 ou 23 anos e tem páginas que fazem chorar. A mãe de Huoy morre pacificamente no caminho de Phnom Penh para as comunas rurais. Ngor e a sua família sofrem abusos indescritíveis nessas comunas do Khmer Rouge. A propaganda constante. A fome. As mortes desnecessárias. Os ignorantes do Khmer Rouge que diziam que não precisavam de médicos, porque eles próprios conseguiam pegar numa faca e tirar o que estava mal numa pessoa.

O livro mostra-nos o que é a barbárie mascarada (ou estimulada) de ideologia e o que o ser humano consegue fazer contra outro ser humano. Há torturas que doem só de ler, canibalismo, violações. Os podres que viviam à sombra do pai de Ngor são agora os bons comunistas e usam isso para se vingarem de quem acham que lhes fez mal.

Ngor viu o seu pai e o seu irmão a serem mortos por algo que os comunistas entenderam ser um crime. Pouco antes de morrer, o pai de Ngor acena-lhe para não se revoltar, para não o tentar defender. Ngor vê-os morrer. Impotente.

Huoy engravida e o parto é difícil. Apesar de ser obstetra, Ngor não pode pedir aos comunistas do Khmer Rouge o que ela precisa e ela acaba por morrer, bem como o seu filho. Se Ngor tivesse pedido, ter-se-ia denunciado como médico e seria morto imediatamente. Ngor teve de calcular que seria melhor ele não morrer, do que ele, Huoy e o filho morrerem. Este pensamento destrói Ngor.

É também uma história de grande perseverança. Comecei a pensar que era uma crítica simples a um livro, mas à medida que escrevia, sentia que tinha de recuar mais para explicar o Camboja. Só percebendo o que aconteceu ao Camboja se conseguirá entender Ngor e o que ele viveu. Depois de sofrer às mãos do Khmer Rouge, Ngor conseguiu escapar para um campo de refugiados na Tailândia, onde trabalhou como médico. Assim que pôde, foi para os EUA. Aí, protagonizou o filme Killing Fields de 1984 com o qual venceu o Óscar de melhor actor secundário. Em 1987 publicou o livro Survival in the Killing Fields.

A vida de Ngor acaba em Los Angeles em 1996. Num aparente assalto, Ngor recusa dar o medalhão que traz ao pescoço. É morto com um tiro. O medalhão tinha a fotografia de Huoy.

O medalhão de Huoy e o filme que o tornou famoso

Teoria do pêndulo

No final do livro, Ngor expõe o que eu vim a chamar de Teoria do pêndulo (provavelmente outros já pensaram nisto antes de mim). O pêndulo é como a política de um país: se for muito para um lado, fica desequilibrado.

Pendulum GIF | Gfycat
Teoria do pêndulo

É difícil não reagir ao extremismo louco dos nossos opositores. Contudo, o mais corajoso é precisamente não reagir a esse extremismo com outro extremismo contrário, mas sim mantendo a posição no meio. O Camboja não conseguiu isto. De cada vez que o Camboja piorava, a reacção no sentido contrário era ainda mais forte. E o Camboja conseguia sempre piorar. A França foi uma resposta às invasões siamesas. Depois vieram os japoneses. Quando a França regressou, os independentistas extremaram-se mais e o pêndulo oscilou mais. O rei Sihanouk tentou balançar esta situação dando algumas vitórias aos independentistas (perda de poderes reais na Constituição de 1947, semi-independência de 1948, independência total em 1953), mas a posição dos independentistas continuou extremista e continuaram a aliar-se aos guerrilheiros comunistas. Lon Nol foi depois a resposta contrária a Sihanouk e o pêndulo moveu-se para o outro lado. O seu governo reagiu à neutralidade de Sihanouk às ingerências territoriais dos vietnamitas e ordenou ataques contra eles. Também mostrou a sua veia de superioridade racial e sonhadora e, sob o seu governo, os vietnamitas que viviam no Camboja foram massacrados, embora o Camboja fosse incapaz de lutar contra o Vietname.

Com o governo terrível de Lon Nol, o pêndulo queria mover-se para o lado contrário e com ainda maior magnitude. Quando os Khmer Rouge entraram em Phnom Penh, foram recebidos como salvadores.

Depois das atrocidades dos comunistas, Pol Pot também mostrou a sua veia de superioridade racial e sonhadora e procurou esconder o inferno a que tinha levado o Camboja iniciando uma guerra contra o Vietname. Pol Pot, tal como Sihanouk e Lon Nol vivia noutro Mundo e acreditava realmente que podia reconstruir o Império Khmer de Angkor do século IX.

A reacção vietnamita foi a invasão do Camboja de 1978 a 1992, parte da Terceira Guerra da Indochina. Esta invasão destruiu o pouco que restava do Camboja depois de décadas de guerra.

Resumindo, para Ngor, primeiro, a França não preparou o Camboja para a independência. Faltava uma classe média forte e educada para resistir ao movimento do pêndulo. Depois os EUA voltaram a desequilibrar o Camboja quando ignoraram a sua posição neutral na Segunda Guerra da Indochina. Do lado comunista, a China deu armas e ideologia ao Khmer Rouge. Os vietnamitas usaram o Camboja no seu Caminho de Ho Chi Minh, criando mais desequilíbrio.

Exemplos da Teoria do pêndulo

Basicamente, a Teoria do pêndulo é a resposta ao inimigo em maior magnitude, o que no futuro leva a um inimigo mais extremista. Quando se conhece a Teoria do pêndulo, vê-se em todo o lado. Qualquer desequilíbrio para um lado é o acumular de energia potencial. Quando o pêndulo oscilar no sentido contrário (e o pêndulo oscila sempre no sentido contrário), a magnitude será ainda maior que a do passado.

A eleição de Trump terá sido uma reacção ao extremismo percepcionado de Obama. O movimento antifa será a reacção a Trump e o mesmo Trump pode ser a reacção aos protestos e motins pela morte de George Floyd. É difícil ser moderado em clima de conflito.

Trump rode a wave of white nationalism. There is no evidence here that he created a wave of white nationalism. Obama’s election led to a surge in the white nationalist movement. Trump’s election seems to be a response to that.

in Everybody lies, Seth Stephens-Davidowitz, 2017

Uma forma de evitar este extremismo crescente pode ser dada pelo caso alemão. Para evitar dar protagonismo aos extremistas da AfD, existe uma regra tácita que impede que um governo se forme com o apoio dela. Quando o FDP ignorou esta regra e quis formar governo em Thüringen em 2020 com o apoio da AfD, a sociedade juntou-se contra isto. Novas eleições foram marcadas e o FDP reconheceu o erro.

Se o FDP tivesse feito governo com o apoio dos extremistas, provavelmente o pêndulo ficaria desequilibrado e a resposta dos extremistas de esquerda fazer-se-ia sentir. Pelo bem dos moderados, parece vital que não se façam acordos com os extremistas, embora a curto-prazo faça sentido.

Em Portugal, o governo de 2015 foi apoiado pela extrema-esquerda. Pela Teoria do pêndulo, esta normalização dos comunistas e bloquistas levará a que a resposta extremista contrária leve o pêndulo para o outro lado e os moderados desapareçam.

Camboja hoje

Depois da saída dos vietnamitas do Camboja, o país estava completamente destruído. Para ter ideia, uma criança que tivesse 10 anos em 1975, início do genocídio do Khmer Rouge, é agora uma pessoa de 45 anos. Esta geração viu o inferno na Terra. O Camboja continua bastante pobre. Esta pobreza não é apenas económica, mas também cultural. Décadas de destruição arrancaram de dentro do Camboja a sua própria história. A reconstrução continua lenta e dolorosa.

“For generation after generation, we followed our customs until in 1975 the communists put an end to our way of life. We lost everything, our families, our monks, our villages, our land, all our possessions. Everything. When we came to the United States we couldn’t put our old lives back together. We didn’t even have the pieces.”

Haing S. Ngor, 1988

Repetindo a sua história, agora o vizinho poderoso é a China e a influência chinesa é total.

As one of south-east Asia’s poorest countries, suffering from basic power and sanitation issues, Cambodia has welcomed the hefty cheques, soft loans and infrastructure plans from China with open arms. Between 2013 and 2017, China invested $5.3bn in the country – that’s more money than the Cambodian government did. Cambodia’s reliance on China has become even more pronounced in recent months after the US and EU pulled funding in the light of recent authoritarian political measures.

The speed at which money is pouring in has also left local authorities in Sihanoukville with little time and resources to create regulation to manage either the dark underbelly of the Chinese casinos – sophisticated financial crime and money laundering – or the growing local discontentment.

in ‘No Cambodia left’: how Chinese money is changing Sihanoukville

1The French Empire Between the Wars: Imperialism, Politics and Society, Martin Thomas, 2007

2Viet Cong e Việt Minh são termos usados frequentemente como sinónimos, embora não sejam o mesmo. Ambas são organizações revolucionárias comunistas vietnamitas. A diferença está no inimigo e na origem. Os Việt Minh surgiram no Norte e lutaram contra os franceses e os japoneses. Os Viet Cong surgiram no Sul e lutaram contra os EUA.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s