Pensadores vs executantes

Em 1943, Abraham Maslow publicou o seu paper A Theory of Human Motivation, onde explica a sua Hierarquia de necessidades. Esta teoria divide as necessidades humanas em 5 categorias (Fisiologia, Segurança, Social, Estima/Prestígio, Realização pessoal). Devemos entendê-las sequencialmente, ou seja, não vale a pena pensar em criatividade quando se tem fome.

Hierarquia de necessidades de Maslow

Como não vivemos no Paleolítico, é expectável que um ser humano dedique uma grande parte da sua atenção à categoria Realização pessoal. Nesta categoria imensa, quero escrever sobre a necessidade da estimulação intelectual no trabalho para o desenvolvimento humano pleno.

Existem várias formas de estimular o intelecto: desde o cantor que escreve uma música, ao investigador científico que se deita na relva à procura de uma epifania. Ambos respondem a uma vontade de criar algo de novo, de entender melhor o Mundo e de usar o próprio intelecto tanto quanto seja possível. Esta necessidade psicológica possibilita ao ser humano a transcendência da sua experiência limitada para um melhor entendimento da vida.

Quatro tipos de trabalhadores

Podemos parametrizar este estímulo do intelecto no trabalho em ‘regras vs probabilístico’ (rules based vs probability) e ‘margem de manobra’ (degrees of freedom). Regras são o equivalente a if then’s em programação. Regra A: se X acontecer, fazer Y. O inverso de um sistema baseado em regras é o sistema probabilístico. Usa-se quando há tantos factores inter-dependentes, que não há apenas uma forma correcta de actuar. Por exemplo, um jogador de sudoku segue regras definidas; um jogador de xadrez segue a probabilidade.

Margem de manobra é bastante intuitivo. Um chef tem margem de manobra para escolher os ingredientes e as receitas; um cozinheiro no McDonald’s não. Margem de manobra é o número de variáveis que se podem ajustar, bem como a magnitude desse ajuste. Consegues analisar e afectar o problema globalmente ou apenas vês e afectas uma pequena parte?

Infelizmente, a esmagadora maioria dos empregos não possibilitam esta realização pessoal, pois as suas tarefas são baseadas em regras e têm pouca margem de manobra.

Realização pessoal pelo trabalho

Eu diria que o intelecto se sente verdadeiramente desafiado, logo capaz de realização pessoal, em trabalhos em que as decisões são probabilísticas e com margem de manobra. Vejamos alguns exemplos de trabalhos e como se podem categorizar:

Um homem do lixo, lixeiro(?), tem o seu trabalho regido por regras. Existem regras para como apanhar o caixote, o que fazer se o camião avariar, como agir se o caixote estiver em mau-estado, etc. Estas regras são também bastante restritivas na margem de manobra que permitem. O trabalhador pode pensar numa rota mais eficiente para apanhar o lixo, mas a sua margem de manobra não inclui o ajuste da rota. É assim um executante.

Empregos com maior estatuto social também caem nesta categoria. O trabalho de um engenheiro típico1 é cada vez mais baseado em regras pré-definidas e com cada vez menos margem de manobra. Um engenheiro típico numa empresa com mais de 50 trabalhadores já verá o seu trabalho normalizado através de regras. Regras como: cada estudo técnico deve ser guardado num certo directório, cada interacção com o cliente deve seguir certo procedimento, certo desenho deve seguir as legendas da empresa, etc. Para um engenheiro típico é importante saber as regras reactivas, ie ‘se acontecer isto faço aquilo’, bem como as activas, ie certo cálculo é feito conforme certo manual diz.

A margem de manobra de um engenheiro é também reduzida. Pode haver liberdade para escolher dado material em detrimento de outro, mas as empresas tendem a reduzir a variabilidade no material pela eficiência de procurement e diminuir as surpresas no funcionamento em obra. Um engenheiro típico é assim também um executante.

Uma área onde ainda existe margem de manobra no trabalho de engenheiro típico é na melhoria dos métodos de trabalho. Um engenheiro típico pode gozar de margem de manobra quando for para programar automatizações e optimizações. Com isto torna-se num jogador, em que continua a ter regras, mas pode brincar à volta delas e criar novas. No entanto, é uma liberdade que tende a acabar, pois há-de chegar a um ponto em que automatizou tanto que basta à chefia carregar num botão e ter tudo feito.

Muitos engenheiros típicos acabam por se desencantar quando o seu trabalho se torna repetitivo e não têm margem de manobra para fazer diferente. Poder-se-ia pensar que esta forma de trabalho cortado em pedaços é mais para os engenheiros típicos jovens, mas tal não é verdade. Um engenheiro típico, ao subir na hierarquia, aumenta a dificuldade do seu trabalho pelo aumento na complexidade das suas tarefas (regras dependentes de outras regras), não pelo aumento do alcance das mesmas (especialista vs generalista).

Ao contrário dos assalariados, quem tenha o próprio negócio trabalha de forma probabilística. Imaginemos um cabeleireiro que abra o seu próprio negócio. Para o objectivo de maximizar o seu rendimento, o cabeleireiro deve atribuir valores esperados de diversas iniciativas. Por exemplo, deve aumentar a publicidade ou deverá conservar liquidez? Deve investir em melhor equipamento ou contratar empregados? Não é certo que qualquer das iniciativas produza o valor esperado e é precisamente esta incerteza que precisa de um sistema probabilístico.

Para pequenos negócios, a margem de manobra é condicionada pela concorrência. O cabeleireiro terá margem de manobra para funcionar noutro horário que não o convencional? Embora não se veja limitado por regras, continua a ter pouca margem de manobra e assim este trabalhador é um adivinhador. Outros adivinhadores são os astrólogos, seguranças de discotecas, jogadores de poker.

Imaginemos agora um cantor original. Este escreve as suas canções criativamente, logo com menos regras e com maior probabilidade2. A margem de manobra também é grande. O cantor pode escrever uma canção só com monossílabos, pode não escrever durante algum tempo, pode juntar instrumentos ou retirar, etc. Há um grande número de variáveis que o cantor pode ajustar. Logo, o cantor será um pensador.

Um investidor também aparece nesta categoria dada a infinidade de variáveis que o mesmo deve considerar. Tudo influencia o mercado, desde o salário dos gestores, até aos conflitos no Médio-Oriente e um investidor deve atribuir probabilidades a cada evento para assim ter um valor esperado de dada empresa. A sua margem de manobra também é alta, podendo investir ou não investir, incluir outras áreas de conhecimento na sua análise ou retirar – psicologia, relações laborais, história política, filosofia, ética, etc. Outros casos de pensadores incluem filósofos, escritores, economistas.

A automatização e o colectivo contra estes tipos de trabalhador

Beth Azar classifica (ver imagem abaixo) os tipos de trabalho em que o ser humano é geralmente melhor ou pior que os computadores. Sem surpresa, os executantes são geralmente piores que os computadores e logo mais vulneráveis à automatização. Os jogadores são geralmente melhores que os computadores, embora isso tenda a acabar. Até os exemplos que o autor dá do Xadrez e do Go já foram entretanto conquistados pela inteligência artifical. Trabalhos baseados em regras são relativamente simples de automatizar.

Os dois outros tipos são classificados de acordo com o seu desempenho contra o dos colectivos. Os adivinhadores são geralmente piores ou iguais aos colectivos. Um exemplo disto será o do professor que pergunta à turma quantos berlindes estão no frasco. Poucos acertam, mas a média dos palpites fica próxima do número certo. Os palpites errados por excesso e por defeito tendem a anular-se.

Os pensadores também tendem a ser piores que os colectivos. Por exemplo, é sabido que é altamente improvável que um indivíduo que invista activamente consiga superar o mercado. Eu entendo isto como querendo dizer que o pensador tem as odds contra si, logo o seu sucesso é mais desafiante e mais difícil de atingir. Características que me parecem fundamentais para estimular o intelecto e atingir a realização pessoal pelo trabalho.

in More Than You Know, Michael J. Mauboussin

1Entenda-se por engenheiro típico o que é assalariado e passa a maior parte do seu tempo no escritório ao invés de no site. Não se inclui aqui o engenheiro que trabalha na linha da frente do conhecimento sobre computação quântica.

2Se for um cantor pop manufacturado pela indústria musical terá ainda um trabalho baseado em regras.

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