Trabalhadores capitalistas

A riqueza mundial é de $360,6B em 2019. Se esta riqueza fosse distribuída uniformemente, cada pessoa teria cerca de $50.000 em património1. No entanto, o Mundo está longe de ser uniforme em riqueza. Se escreveres desigualdade no google, verás todo o tipo de imagens que comprovam o absurdo a que chegámos na acumulação de capital. Eu gosto desta:

A acumulação de capital

A acumulação de capital é uma característica do capitalismo e não um acidente, diria Marx. A natureza do capitalismo estimula a procura constante de eficiências no uso do capital. Quando um produtor ineficiente sai do mercado, o eficiente preenche o seu vazio e consegue assim ser ainda mais eficiente – economias de escala – e aumentar a rendibilidade do seu capital em termos absolutos. Esta eficiência pode ser entendida como melhor organização do processo produtivo, bem como meios de produção com maior capacidade produtiva. Isto é imensamente benéfico para o consumidor, que tem acesso a bens e serviços melhores e mais baratos e para a sociedade que consegue produzir mais e aumentar o nível de bem-estar médio.

No entanto, a tendência da acumulação de capital leva a uma situação que poderá já não ser boa para o trabalhador, nem para o consumidor e, segundo Marx, nem para o próprio capitalista.

Para entender melhor, consideremos o caso da Amazon, que é bastante ilustrativo desta tendência. Pela sua capacidade ímpar de sacrificar os lucros, criar eficiências produtivas e conquistar mercado, a Amazon é hoje um gigante que já afectou várias indústrias. Entre outras, a Amazon dominou a indústria livreira, que antes tinha algumas grandes empresas (Barnes and Noble, Hachette, Penguin Random House, etc). Estas, entretanto, viram-se reduzidas a nichos.

Para o consumidor isto foi maravilhoso pela grande oferta de livros. Contam-se pelos dedos de uma mão os livros que comprei numa loja nos últimos anos. Alguns livros técnicos ou até alguns menos conhecidos eram bastante difíceis de encontrar em livrarias. A Amazon deu a possibilidade de comprar qualquer livro num sítio só e a preços acessíveis.

Para os trabalhadores terá sido menos bom, porque a procura para este tipo de trabalho diminuiu.

Para os capitalistas foi terrível para os perdedores e aceitável para o vencedor. Não esqueçamos que a Amazon conquistou este mercado aceitando uma margem de lucro menor e até negativa, logo o capital nesta indústria tornou-se menos rentável. Alguém que queira agora competir com a Amazon a vender livros, deverá estar disposto a uma rendibilidade ainda menor ou um uso ainda mais eficiente do capital. Nesta área, uma maior eficiência será conseguida pela inovação.

Não havendo ninguém capaz de apresentar uma oferta de livros melhor para o consumidor que a Amazon, esta tenderá a ficar com o monopólio e aí já poderá ser mau para o consumidor. Os monopólios têm mau nome na sociedade e com boa razão. Para onde vou se o serviço da Amazon for mau para mim? Se um escritor se desentender com a Amazon, esta tem um poder muito maior de o prejudicar que o contrário. O trabalhador também é prejudicado quando apenas pode vender certo tipo de trabalho a uma empresa.

Este processo de acumulação de capital torna-o menos rentável, o que aumenta as desigualdades do próprio capital. Isto é, se uma pessoa da classe média quiser investir, terá menos empresas para o fazer e as que haja serão menos rentáveis2. Assim o capitalismo sobe o muro entre os que têm e os que não têm. Além disso, também é criado um muro entre os instruídos para trabalhar os meios de produção cada vez mais tecnológicos e os que perdem a capacidade de vender o seu trabalho. O caso aqui poderá ser o dos armazéns cada vez mais automatizados da Amazon.

A juntar a este problema da desigualdade económica, temos o problema da alienação do trabalho. Não digo alienação no sentido de distanciamento do trabalhador para com o resultado do seu trabalho, mas sim no sentido de alienação do trabalhador da tomada de decisões sobre o seu trabalho. Com empresas gigantes monopolistas, não só um trabalhador não consegue competir no mercado em nome próprio, como não tem forma de controlar o seu trabalho dentro de uma gigante.

Neste Mundo em que o capital precisa menos e menos do trabalho, que hipóteses tem a classe média de ser uma classe com algum futuro histórico?

Trabalhador sindicalista partidário

A solução comunista e social democrata – maioritariamente aceite nos países ocidentais – para este problema é o do controlo dos meios de produção, ie empresas, pelo Estado. Assim conseguir-se-á recolher os lucros do capital para a sociedade, bem como permitir à mesma controlar o rumo da produção através de um governo eleito.

Há, no entanto, vários problemas com este modelo na práctica. Um trabalhador continua a não controlar directamente a sua produção no comunismo, nem na social-democracia. Agora em vez de ter um capitalista, tem sindicalistas, burocratas e políticos a controlar o seu trabalho. Esta situação volta a criar uma classe entre o trabalhador e o seu trabalho. Ainda que em social-democracia a classe trabalhadora possa votar na classe dirigente, a capacidade de um trabalhador ou até de todo um sector de controlar o seu trabalho através de influência política é não poucas vezes zero. Soluções boas para um trabalhador poderão não beneficiar, nem sequer chamar a atenção do eleitorado.

Além desta contínua alienação do trabalhador, existe ainda uma tendência para a perda de eficiência da produção por jobs for the boys, ie cronyism. Os incentivos dos gestores públicos levam a que as empresas públicas tendam a dar prejuízo e a usar ineficientemente o capital. É até visto como sendo prejudicial para a sociedade que a empresa pública dê lucro, pois quererá dizer que os preços poderiam ser reduzidos e que mais trabalhadores poderiam ser contratados. Isto deixa-as numa situação periclitante, em que para se manterem em actividade, precisam que os contribuintes cubram os prejuízos. É comum os trabalhadores de empresas pedirem o apoio do governo e até mesmo a nacionalização, o que dito de outra forma significa que pedem que a sociedade se endivide para comprar a empresa sem um plano para receber um retorno por esse investimento. Não é sustentável para um país a nacionalização de empresas para se garantir o status quo dos trabalhadores, mesmo que isso implique um prejuízo.

Em empresas públicas é comum a ideia de que os seus eventuais prejuízos são ‘problema do Estado’, ou seja o problema é de todos, logo não é de ninguém. Numa empresa que até poderá produzir aquém do que o seu capital permitiria e assim impedir a entrada de concorrentes mais eficientes.

Trabalhador capitalista

Se fosse socialmente aceite como um método de conquistar o controlo sobre o seu trabalho, a classe trabalhadora poderia entrar no capital das empresas e assim influenciar mais directamente o seu rumo.

Por exemplo, no dia 28/05/2020 o BCP contava com 7.262 trabalhadores e uma capitalização bolsista de ~1,5mM€. Em Portugal para se ser um investidor qualificado é necessário ter uma participação de pelo menos 2%. Logo, para que os trabalhadores do BCP num todo fossem considerados investidores qualificados teriam em média de investir 4.100€. É muito dinheiro para muitos dos trabalhadores que recebem pouco, mas não impossível e a dificuldade separa os que querem saber do seu trabalho e os que não querem. Assim, a classe trabalhadora teria uma presença no capital e assim influenciaria o rumo do banco. Talvez conseguisse influenciar mais que com greves.

Artigo 23.º-A

Direito a requerer a convocatória

1 – O acionista ou acionistas de sociedade emitente de ações admitidas à negociação em mercado regulamentado que possuam ações correspondentes a, pelo menos, 2 % do capital social podem exercer o direito de requerer a convocatória de assembleia geral, de acordo com os demais termos previstos no artigo 375.º do Código das Sociedades Comerciais.

CMVM – Título I – Disposições Gerais sobre participações qualificadas

Esta ideia é considerada inaceitável actualmente pela sociedade e mais depressa teremos o Estado a endividar-se para entrar no capital de empresas, que a maioria dos trabalhadores a investirem o seu capital nas empresas em que trabalham ou nas empresas cotadas.

Um contra-argumento popular é o dos inúmeros crashes bolsistas e do risco percepcionado das acções. Enquanto a literacia financeira for pobre, a classe trabalhadora continuará a investir em empresas cotadas por terem ouvido a dica do vizinho ou por terem um sentimento de que ‘vai subir’. A classe trabalhadora não deve comprar cegamente acções da empresa onde trabalha. Deve procurar instruir-se financeiramente, entender o negócio e aproveitar possíveis desvalorizações. Investir em acções não é rocket science e tem muito mais a ver com o temperamento que com a inteligência, como diria o Warren Buffett.

Outro contra-argumento: isto já foi tentado com a ownership society do George Bush e levou à bolha imobiliária e consequente Grande Recessão de 2008. Mais uma vez, confundiu-se endividamento com inteligência. A classe trabalhadora quis participar no frenesim do dinheiro fácil, em vez de investir sensatamente em empresas com valorizações aceitáveis.

Herbert Marcuse defendia que a posse das acções não dá o controlo da produção à classe trabalhadora. Sobre isto, eu diria que 1) a classe trabalhadora ao investir nas empresas poderia enfim também acumular capital e assim no futuro a sua participação nas empresas subiria, 2) relembrando o caso do BCP, o que tem mais influência: 7.262 trabalhadores accionistas com uma participação de 1 por 50 (2%) no capital ou 7.262 trabalhadores eleitores com votos equivalentes a 1 por 1.377 (0,07%) na população4?

Classe trabalhadora afugentada das acções

Uma tragédia da classe trabalhadora é ver-se frequentemente atraída aos mercados financeiros pelas bolhas especulativas e repetidamente assustada pelos crashes. A própria classe trabalhadora inflaciona estas bolhas especulativas, quando vê o sucesso de um punhado de empresas e nelas investe, mesmo que aceite um preço que signifique uma rendibilidade mínima. Hoje, dia 28/06/2020, a Amazon está cotada a um preço – $2.398 – que significa uma rendibilidade (inverso do price to earnings) de 0,9%. Não só as bolhas são destrutivas do capital, mas também as sobre-valorizações que empatam o capital em retornos miseráveis.

Olhando para trás vemos que os crashes bolsistas arruínam o capital da classe trabalhadora e, o que ainda é pior, imprime nesta uma desconfiança dos mercados. Os mercados são percepcionados como faroeste sem escrúpulos onde os pais comem os filhos e onde a classe trabalhadora moral não tem lugar. Pela memória colectiva da experiência financeira desastrosa de um grande número de trabalhadores, o investimento em acções é diabolizado e a classe trabalhadora afugentada dele. Está presente no imaginário colectivo os excessos especulativos na bolsa norte-americana de 1929, a bolha dot.com de 2001, a Grande Recessão de 2008. A ideia de existirem grandes magnatas, como no final do século XIX quando controlavam efectivamente a economia, continua presente na classe trabalhadora. Um trabalhador dirá: Os mercados são para os banqueiros que nada fazem a não ser explorar os pobres e os trabalhadores.

Esta posição de auto-exclusão e até de indiferença3 da classe trabalhadora para com os mercados financeiros contrasta com o conhecimento comum que a rendibilidade do capital tende a crescer mais que a do trabalho. Não são poucos os trabalhadores que discutem os lucros ‘demasiado altos’ que as empresas cotadas revelam. Apesar deste conhecimento, a participação da classe trabalhadora no capital das empresas é relativamente baixa. Ver a tabela abaixo sobre a participação em acções em vários países da UE.

O discurso da sociedade sobre o investimento em acções associa-o a especulação e aposta de sorte, como se fosse um casino. Ora, as acções não são papelinhos do Euromilhões. Representam uma parte do capital de uma empresa e por conseguinte uma parte da produção.

No entanto, a percepção de que as acções são apostas de sorte é forte, o que causa o aparecimento de muitas empresas que respondem a este incentivo e invariavelmente destroem o capital de quem especula nelas. Hoje em dia o público parece atraído para qualquer empresa cotada que tenha a buzzword bitcoin ou blockchain no seu prospecto.

O discurso da sociedade sobre acções é assim fechado a uma única dimensão de sortudos e azarentos, insiders e outsiders, ricos e pobres. Este discurso isola-se de entender como certas empresas funcionam, quais os seus desafios, quais as tendências de longo-prazo a que a produção responde. Para mais, o marketing ocupa o pouco que resta de rebeldia na classe trabalhadora com ideias de prazer e identidade associadas a bens de consumo. ‘E não te esqueças que podes financiar essa viagem inesquecível a Cancún em 25 prestações super-acessíveis!’

Para a maioria dos trabalhadores, o maior investimento é a própria habitação, que financiam através de endividamento. Mesmo neste clima de taxas de juros incrivelmente baixas, um trabalhador poderá pagar mais pelos juros que pela casa num crédito habitação de 40 anos. Se optar pela taxa fixa (imagem abaixo), ainda terá de pagar mais 1/3 do valor da casa em juros. Isto excluindo as comissões, claro. Para muitos a habitação é um gasto alto o suficiente para que durante décadas não haja rendimento disponível. Esta situação amplia ainda mais a desconfiança da classe trabalhadora perante o capital quando se vê vulnerável a aumentos das taxas de juro. Vemos assim a classe trabalhadora aprisionada a trabalhar para pagar os custos de capital em que incorreu, sem participar nos lucros que o seu trabalho proporcionou ao capital.

Simulação de crédito habitação

O trabalhador capitalista não deixará de ser uma miragem e a classe trabalhadora continuará longe do capital das empresas, o que levará ao aumento do fosso entre os que têm e os que não têm, o capital estrangeiro a ocupar o vazio e a pressão continuará para que os burocratas e os revolucionários resolvam.


1Devemos ter atenção com estes valores, que não são assim tão simples. Por exemplo, contabiliza-se a riqueza pública, eg pontes, ou não? Para entender melhor o valor, segue o link da Visual Capitalist. Sempre é um valor útil para enquadrar a discussão sobre as desigualdades económicas. Se a média por pessoa é de $50.000, então quão longe estarei eu desse valor? Sou mais rico ou mais pobre? Faz sentido esta média incluir África? Na Europa existe um valor bastante mais alto de capital que em África. Logo será justo comparar um europeu a um africano em termos de riqueza? África está no processo de acumulação de capital e a Europa já tem o equivalente a séculos de acumulação.

2Esta situação parece ser propícia para as bolhas ou apenas sobre-valorizações de um punhado de empresas. Ver Nifty Fifty, FANG.

3Experimenta perguntar no teu emprego pela composição do plantel do Beira-Mar na época 99/00 e provavelmente responder-te-ão com uma exactidão satisfatória. Experimenta depois perguntar o que é o ROE, ou quais os motivos para a política monetária actual, ou quais as maiores empresas em Portugal.

4Cálculos rápidos feitos para o caso do BCP e da população portuguesa.

One thought on “Trabalhadores capitalistas

  1. Um dos principais problemas no raciocínio do comandante (de quê???) é o de considerar que os factos apontados são assim mesmo. Surgem do nada, sem razão que os expliquem e sem um contexto onde façam mais sentido e sem uma ideologia específica por trás. Tudo aparece como se fosse um dogma incontestável. Pretende-se propalar o mantra de que o que faz falta é transformar todos os trabalhadores em pequenos capitalistas e que se isso fosse conseguido, entraríamos no paraíso terreal. Nada de mais falso, como falsa é a ideia subjacente da inelutabilidade dos factos apontados. Como diz o povo:” afinal havia outra, e eu não sabia”….

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