Desencanto de ser jovem português

Correio da Manhã|Paulo Calado

Acabei a minha licenciatura em 2011, quando o desemprego em Portugal era de 12,5% e o desemprego jovem muito mais alto. No pico, quase metade dos jovens entre os 15 e os 24 estavam desempregados. Como muitos outros na altura, decidi prolongar os meus estudos e adiar a entrada no mercado de trabalho. Para conseguir trabalhar na minha área, tal como muitos outros jovens, respondi a centenas de anúncios e baixei as minhas expectativas salariais. Não haveria hipótese de comprar casa nos próximos anos, certamente, mas eu, tal como muitos outros jovens, desesperava por uma oportunidade.

Eu, tal como muitos outros jovens da Grande Recessão, lembro-me do discurso anti-desempregados que se ouvia. Uma vez numa aula da faculdade, o professor perguntou à sala por ideias para lidar com o desemprego. “É pô-los a limpar as matas”, disse um outro jovem como eu. Tal como muitos outros jovens, lembro-me do que diziam sobre nós.

Geração mimada que agora não quer sair da casa dos pais. Pois, isto a culpa é de lhes terem dado tudo. É isso, não sofreram como nós. Olha, para ipods e roupinha fina já há dinheiro.

Lembro-me dos comentários sobre a justiça no desemprego de quem tinha feito um curso inútil como Antropologia ou Fotografia. Lembro-me dos muitos jovens como eu que emigraram e ainda não voltaram. Eu não emigrei. Era tão certo para um jovem emigrar naquela altura que me fazerem a pergunta ‘que estás aqui a fazer?’ era tão normal como ‘tudo bem?’. Eu, tal como muitos outros jovens, lembro-me de ter ficado em Portugal e ouvir as histórias dos que emigraram e construíam uma vida. O reconhecimento no trabalho, o salário digno, a vida sem ser só a sofrer para chegar ao fim-do-mês e pouco ter para mostrar. As viagens adiadas e os sonhos suspensos.

Outros se lembrarão como eu de devermos estar aliviados porque pelo menos não estávamos na Grécia, nem em Espanha onde o desemprego jovem era aterrador. As notícias constantes do que acontecia de pior além-fronteiras.

Outros jovens há que se lembram do serviço lastimável do centro de emprego. “Queres aprender alemão? Pois, esse curso está lotado, por isso tens culinária e contabilidade. Tens de escolher, senão tiramos-te do registo. Não tem nada a ver com o teu curso? É assim que funciona”. Lembrar-se-ão da forma idiota como encontravam empregos para quem era formado. Para quem não era formado não sei, mas imagino que fosse ainda pior. A obrigatoriedade de ir a sessões em que juntavam todos os desempregados para lhes ocupar a tarde inteira e os serviços se sentirem importantes. As filas no centro de emprego e as caras de medo nuns, derrota noutros.

Eu, tal como muitos outros jovens, sei por experiência que em Portugal a falta de oportunidades não se fecha somente no desemprego. Um emprego era dado como se fosse um favor. Era evidente que um jovem deveria ficar extremamente agradecido com tamanha caridade. Sair às 18h, mesmo com o trabalho e até mais de 8h feitas, era motivo para olhares e comentários. “Meio-dia hoje?” Um bom trabalhador era o que passava o dia a queixar-se de ter ficado a dormir no carro por estar a fazer tantas horas.

Como assim, progressão na carreira? Um colega com 20 anos de casa estava a bloquear o caminho e a chefia estava satisfeita em apenas manter o negócio. Muitos outros se lembrarão do clima contra os jovens por parte de alguns trabalhadores mais velhos. “Deixa-te estar aí sossegadinho nesse trabalho de merda, que eu já cá estava antes e cá continuarei ainda até me reformar daqui a 20 anos”.

Outros talvez se lembrem da sensação de nunca se conseguir abrir os braços e gritar ‘porra, estou finalmente a viver!’. Como se viver assim às mijinhas fosse adequado, fosse moral, fosse simpático.

Lembro-me das inúmeras greves e depois ouvir que estavam a lutar por mim, mas eu sentir que estariam a lutar por alguém, mas com certeza que não por mim. Outros haverá que tenham sentido o mesmo. Os jovens de hoje ainda sentem as consequências de ter entrado num mercado laboral sem espaço para eles. Muitos anos a patinar num trabalho aquém das qualificações e sem forma de progredir. Agora muitos de nós já fomos rapidamente apanhados pela geração que veio a seguir. Surge a certeza de a geração da recessão ter culpa da sua situação débil.

Eu, como outros da minha geração, pensarão hoje que contribuem com uma das tributações mais altas da Europa sobre o trabalho para uma Segurança Social da qual não beneficiarão.

A verdade é que a minha geração foi sacrificada na crise. Para salvar o Estado que se tinha viciado no sistema financeiro, matou-se a economia portuguesa. Para um jovem sem subsídio parental, a economia é essencial para juntar poupanças. Sem economia, mais sofrem os que pouco têm.

O que tinha Portugal para oferecer à sua geração mais qualificada? Uma dívida pública enorme, impostos constantemente a aumentar, bancos zombies salvos, mas sem capacidade de emprestar à economia, desemprego jovem sempre nos 2 dígitos. Muitos jovens se lembram do flagelo dos recibos verdes e como muitos não conseguiram nunca escapar deles. Portugal não tinha indústria para os jovens qualificados. Tinha um selo de ‘mão-de-obra barata altamente qualificada’ para estampar na testa dos jovens e assim sermos competição para os países do leste europeu no outsourcing do trabalho barato.

O ministro, que acompanha o primeiro-ministro na visita à China, apelou ao investimento chinês em Portugal argumentando que os custos salariais são inferiores à média da União Europeia (UE) e têm uma menor pressão de aumento do que nos países do alargamento.

Manuel Pinho à procura de investimento chinês em 2007 – Público

Os jovens não sofreram sozinhos. Uma pessoa que tenha poupado toda uma vida para viver bem na velhice, vê-se há anos num ambiente em que juros quase nulos nos depósitos bancários são normais. Em valores líquidos, depois do imposto sobre o capital, muitos depósitos bancários nem retornam o suficiente para a inflação e até são negativos. A juntar a isso as reformas congeladas apesar da inflação e temos muita velhice triste em Portugal nos últimos anos. Para quem ou para o quê é que tantos fomos sacrificados?

Na primeira empresa onde trabalhei, era conhecido dos empregados que dava prejuízo. Como é possível dar prejuízo e continuar a funcionar? “O importante é a facturação para os bancos”, disse-me um colega ao almoço. Essa empresa era mal gerida, mas hoje ainda está a trabalhar. Uma empresa zombie aguentada por empréstimos bancários e a ocupar o espaço no mercado, tendo assim impedido concorrentes mais eficientes e pujantes de ter entrado. Hoje em dia em Portugal, a maioria das PME – e mesmo algumas maiores – trabalha para o curto-prazo, sem capital para investir e com grande dependência do sistema bancário. Anos depois do início da Grande Recessão e Portugal continua a ter uma economia zombie, sem nada a oferecer às gerações jovens, sem ser a conta para pagar.

Muitos jovens como eu pensarão nisto, agora que o covid nos traz uma recessão que poderá fazer a de 2009 parecer pequena. É o recomeço da merda de ser jovem em Portugal.

‘Que estás aqui a fazer?’ Eu entretanto emigrei.

Vou embarcar, num barco grego
Falta-me o ar, falta-me emprego
Para cá ficar

Barcos Gregos, Xutos & Pontapés, 1985

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