Sobre Atlas Shrugged – Ayn Rand

Há muitos anos que tinha curiosidade em ler este livro. É considerado por quem o leu e pela própria Ayn Rand como a sua obra-prima, mas não é por isso que o quis ler. É por ser tão recomendado pelos conservadores mais à direita norte-americanos. Quem os oiça, parece ser um livro capaz de mudar um homem pacato num fervoroso defensor do capitalismo e da liberdade individual da sociedade. Nele, a autora divide em poucos tons o Mundo. Existem os produtores, que devem ser felicitados pelo seu génio, pela sua iniciativa, pelo seu espírito empreendor, do qual a sociedade mama (sim, eu uso o verbo mamar). Ao mesmo tempo os outros, os apáticos, os que não procuram o lucro e dele até fujam, como se o dinheiro fosse um mal por si só e exultam os ideais de espírito, que são muito mais magníficos que os materiais. Este segundo grupo é representado como medroso, anti-individualismos, sem ideias, que vive parasiticamente dos produtores e procura activamente pôr obstáculos aos produtores. Se os produtores tivessem uma dimensão mais que a de heróis incompreendidos, então eu, possivelmente, diria que seria um livro interessante. No entanto, cada grupo é um ponto estático no tempo, que começa unidimensional e acaba unidimensional. A autora é incapaz de dar profundidade a personagens que assim ficam monótonos, sem realidade que o leitor possa entrever. São bonecos de papel que nunca se viram nem um pouco, para o leitor não ver que não existe nada mais além do que já foi apresentado ao leitor. Repetem-se, lamentam-se, aborrecem-me. James Taggart, o irmão da heroína, que se refugia no consenso do Conselho de Administração da Taggart Transcontinental nunca é visto como algo que não seja uma personagem que apenas existe para dificultar a missão de Dagny. Num livro com mais de 1000 páginas (e eu li!), esta personagem não mais faz que não seja as suas conversas repetitivas e sempre com o mesmo objectivo. A conversa típica dos irmãos: A Dagny quer produzir mais, James comporta-se como uma criança e diz que é um risco e nunca ninguém tomou esse risco, logo não pode ser ele, Dagny comporta-se como uma senhora acima disso e sacrifica-se, James continua a comportar-se como uma criança e deixa que a irmã se sacrifique. Já percebi! A Dagny é boa, o James é mau. São preciso mais de 1000 páginas para isto? Não são. Só se o objectivo for aborrecer o leitor.

Com o nível do livro fora do caminho posso escrever sobre o sumo dele. Afinal do que trata esta obra-prima (entra música de tambores)? A escritora fala neste livro que devemos ser egoístas, devemos procurar o nosso próprio bem-estar e não ser altruístas. O altruísmo é visto como uma maldade, uma forma de misericórdia, que não faz bem nem a quem é ajudado, nem a quem ajuda. Serve apenas para corromper o correcto funcionamento do capitalismo, que na sua forma mais pura separa os fracos dos fortes a produzir. Ayn Rand não separa o individualismo do capitalismo e até os vê como sendo parceiros dependentes mutuamente. E nisto eu concordo, claro. O individualismo é a maior liberdade que uma pessoa tem. É no individualismo que cada um se poderá encontrar a si mesmo, pode lutar e fazer o que quiser. A perda deste direito resulta em sociedades distorcidas e corruptas, em que não existe nunca a vontade de um ser humano, mas sempre a do grupo. O Eu deve ser sempre sacrificado pelo nós nestas sociedades. Atlas Shrugged não pode ser mais claro na sua oposição a esta ideia da colectivização.

Para concluir numa frase: um livro mal escrito, cuja ideia eu discordo mais do que concordo, embora no que concorde, concorde muito. Concorde era um avião.

Ah!, descobri que existe tal coisa como a Conservapedia. Não estou a gozar. http://www.conservapedia.com/Taggart_Transcontinental_Railroad

Originalmente publicada em 20/08/2016

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