Optimista falhado

O meu vizinho está a tocar-me à porta. Quando olho pelo óculo da porta vejo a sua barba desgrenhada e cabelo oleoso preto e feio. Tenho-me perguntado se aquilo não será estratégia para não apanhar carraças. Elas entram e depressa escorregam para fora do cabelo. Abro-lhe a porta. ‘Bom dia, João’, diz ele. ‘O que vais almoçar?’. ‘Omelete com salsicha’. ‘Epah, isso é muita bom’, diz ele enquanto se esgueira por baixo do meu braço e se vai sentar no sofá da sala. ‘E coca-cola, tens?’. ‘Tenho’. ‘Boa, boa. Passa aí’. Há quem diga que sou um pouco permissivo. Eu acho que isso depende do ponto de vista. Se virmos do ponto de vista de alguém no Alasca, essa pessoa nem saberá quem eu sou, por isso para essa pessoa não serei permissivo. Pontos de vista. Dou-lhe a coca-cola e vou-me sentar ao computador. Tenho estado há uns tempos a escrever o meu romance. 10 anos. Comecei aos 17, quando escrevi uma página A4 inteira numa tarde. Àquele ritmo teria um livro em semanas. No final desse dia li o que tinha escrito e apercebi-me da porcaria. “E pronomes não existem?”, pensei eu. “A personagem principal chama-se 88?!”. De lá para cá tenho conseguido escrever 1 página por cada 6 meses. Ainda não dei nome à personagem principal, porque ainda estou a descrever a sua casa. É importante.

‘Ouve só’, diz o meu vizinho. ‘McBacon, né? Man, levanta o hamburguer, ficas com o pão debaixo na mão, né? Manteiga de amendoim, depois voltas a pôr o hamburguer em cima e tens o melhor hamburguer de sempre!’. Isso é nojento. Não, espera, até deve ser bom. Tenho de experimentar. ‘Que estás a escrever, man? Estás sempre a escrever ou a fumar. É-te difícil seres um escritor tão estereotipado?’. ‘O quê?’. ‘Leste que os escritores vivem sozinhos e fumam e é por isso que fazes o mesmo?’. ‘Quê? Não!’. ‘Ok, ok. Então porque nunca deixas aquela rapariga dormir aqui?’. Este gajo anda-me a espiar. Eu deveria expulsá-lo de minha casa. Eu não sou permissivo, nem medricas, sou pensativo e diplomático. ‘A Sofia? Não sei, nunca calhou’. ‘Nunca calhou? Já a vejo aí há uns meses e nunca a vi a sair de manhã’. Este tipo é um assassino. Eu irei morrer agora. Possivelmente tem um canivete e irá espetá-lo no meu olho. ‘Pois. Bem, vou almoçar’. Vou para a cozinha e sinto o fedor e calor do meu vizinho nas minhas costas. Nunca pensei morrer assim. Pensei que seria num prado, a beber vinho da Madeira, ao lado da Sofia deitados numa toalha com rendilhados. Porque é que nunca a deixei dormir aqui? Ela já me pediu não tão subtilmente. Digo-lhe sempre que tenho trabalho no dia seguinte cedo. Gostava que ela estivesse aqui comigo. Não para morrer ao mesmo tempo que eu, claro. Apenas a gostava de ver. Ela tem aqueles lábios carnudos e tortos. Não vale a pena pensar nisso agora. ‘Queres a omelete com quê?’. ‘Esparregado. Não como esparregado há tanto tempo’. ‘Não tenho’. ‘Batata frita’.

O meu vizinho come como um cão. ‘Estava muita bom, pah. Queres ir lá almoçar amanhã?’. Não quero mesmo, a casa dele cheira a gato morto. ‘Ah sim, claro’. ‘McBacon com manteiga de amendoim, ok? Quero batatas’, diz ele. ‘Sim, eu levo’. ‘Então, o que estás a escrever?’. ‘Ah, um romance’. ‘Sobre?’, ‘Bem, é um alien que encontra amor num advogado a quem morreu a mulher’. O meu vizinho levanta-se da mesa da cozinha e leva o prato para o lava-loiças, onde o deixa cair com estardalhaço. ‘Isso é uma merda’, diz ele. Dirige-se para a porta de casa e faz-me sinal para o seguir. Devia pôr os pratos de molho, suspender o computador e descongelar o jantar, mas levanto-me e sigo-o. Quando chego à porta do prédio, o meu vizinho começa a descer a rua. Tem um passo acelerado e sempre que passa por uma montra olha para o seu reflexo, com uma expressão catchim na cara. ‘Tens amigos?’, pergunta o meu vizinho sem olhar para mim. ‘Tenho’, não tenho. É um dos grandes mistérios da minha vida. Embora me dê bem com todos com quem me cruzo, me ria com eles, lhes conte os meus segredos e por vezes até oiça os seus, nenhum amigo vai ficando. É como uma peneira que lenta, mas certamente me vai tirando cada um dos amigos que tive. Se visse algum agora na rua, acredito que não me falaria. Acredito hoje que as tardes que passei a jogar playstation com os meus amigos do liceu foram numa vida passada, que pouco tem a ver com esta. ‘Nunca te vi com nenhum’. ‘Mas tenho’. O meu vizinho ri-se e não diz mais nada.

Sem avisar, o meu vizinho lança-se para a esquerda e eu páro atrapalhado para não chocarmos. Abre a porta de um prédio e entramos. A escada é de pedra a imitar granito. Está fria e escorregadia pela humidade. O meu vizinho vai subindo degraus dois a dois e eu ainda o tento acompanhar, mas desisto. Quando chego ao terceiro andar, vejo a luz de uma porta aberta a iluminar o hall de entrada. Entro e chamo pelo meu vizinho. ‘Estou aqui’. A voz vem de um dos quartos. Passo pelo corredor e pela sala. Parece ser uma casa abandonada. Chego ao quarto. ‘Então, que dizes?’, pergunta o meu vizinho. ‘Que é isto?’. ‘Isto é o quartel-general do estado de Uri’. ‘Uri? Quartel-general’. ‘Esquece, não percebeste’, diz o meu vizinho, que se levanta da cama e vai para a janela. O sacana está a fazer a pose cinematográfica de olhar para o infinito enquanto conta algo importante. E eu estou caidinho a ouvir tudo. ‘Quero saber se percebes isto, João. Já estiveste desempregado? Já te perguntaste quando seria a tua próxima refeição?’. Faço uma pausa para responder, mas quando vou para abrir a boca, o meu vizinho continua. ‘É uma merda. Mas sabes qual é a maior merda de todas? É tu quereres, ansiares mesmo, fazeres dessa porcaria a tua vida. O homem não nasceu para ter um emprego. Essa merda é uma ideia suicida que só se mantém por estar tão entranhada nas cabecinhas das pessoas. Desde que nasces, até que morres, que tens de pensar no emprego, tens de pensar no salário, em gerir bem o dinheiro, em não comer mais do que deves, em não abusar do álcool, senão morres cedo. Tens de viver muitos anos saudáveis para trabalhares, para sustentares toda a merda, que tu sabes que é merda e ainda assim tens de te levantar de madrugada para ires trabalhar para eles’. Neste momento já puxei uma cadeira e estou sentado a ouvir, enquanto afundo a mão pelo bolso do casaco à procura do maço. O escritor que fuma. O meu vizinho tem razão, sou um estereótipo vivo. ‘Percebes?’. ‘E o que queres de mim?’. ‘Não foi isso que te perguntei, pah!’. ‘Tu nunca trabalhaste, estás a falar de quê?’. ‘Ah, mas aí é que te enganas. Eu posso não ter trabalhado, mas sempre fui observador. E eu vejo. Ou trabalhas a vida toda a olhar para a cenoura, ou te recusas a andar e comes a relva que estás a pisar’. O meu vizinho vira-se e vem até ficar perto de mim, demasiado perto. Encosto-me na cadeira e sinto os nossos joelhos a roçarem. É agora que me irá matar. Devo tê-lo olhado de forma que ele não gostou. Eu mereço. ‘Quero que escrevas o que irá acontecer aqui’, diz o meu vizinho que me olha nos olhos. Tem os olhos pretos, como a barba e o cabelo. O seu cheiro a suor e a tabaco é entorpecedor do olfacto. Ao fim de um tempo, o cheiro é tão intenso, que o cérebro desiste de o processar e ignora. Volto a demorar a responder. É uma técnica que aprendi no emprego. Quando não sei o que vai acontecer, ou tudo indica que as culpas vão cair sobre mim, dou um tempo até responder. Assim crio a ideia de estar verdadeiramente a pensar na causa do problema, quando na verdade estou já a pensar em como me livrar daquilo. ‘O que vai acontecer aqui?’. ‘Um novo começo, João!’. ‘Quê?’. ‘Nós vamos derrubar o capitalismo por baixo, João’. Eu nem sabia que não gostava do capitalismo e agora vou lutar para o derrubar. ‘Como assim?’. ‘O capitalismo, meu amigo, precisa de pessoas como tu, optimistas falhados que nunca desistem dos seus sonhos, nem lutam por eles. Tu nunca irás escrever esse livro, mas continuarás a sonhar com ele e é essa merda que te aguenta no teu emprego de merda onde estás a enriquecer o capitalista. Pensa, João. É por tu não desistires desse sonho, que tu te consegues olhar no espelho com a vida de merda que levas. Tu acreditas que algo de melhor virá, mas não. Tu irás trabalhar a vida toda para o teu chefe e o livro nunca será feito, porque tu não tens essa gana em ti. És miserável por seres um optimista’. Como não me posso sentir ofendido? Eu até posso ser miserável, mas isso não é coisa para se dizer na cara. Vai-se dizendo indirectamente até ser criada uma barreira de suspeição para com o outro. ‘João, eu preciso que tu escrevas isto. Assim, terás o teu livro’. A cinza do cigarro cai no soalho em madeira do quarto. Levanto-me e vou para a janela. Apercebo-me da pose cinematográfica. Ponho uma mão no batente da janela e olho lá para baixo. ‘O que vai acontecer aqui?’. ‘Não te preocupes para já. Vai para casa’.

Originalmente publicada em 21/10/2015

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