Como fracturar um cotovelo

É mesmo verdade. Tudo se desenrola em câmara lenta. Já sinto o meu corpo a voar há horas, embora na realidade seja há menos de um segundo. Aproximo-me do alcatrão, já quase o toco. Quem me dera que o efeito câmara lenta durasse mais tempo, mas mal a minha mão toca no asfalto quente do final de tarde tudo acelera e o meu corpo entra num rodopio sem fim. Estou a cair da bicicleta, sei isso. Vinha a quase 40km/h na avenida Almirante Reis, quando a roda da frente deslizou no carril do eléctrico e o guiador ficou instável, até eu perder o controlo e cair. Virá algum carro atrás de mim que me vá atropelar? Terá a minha perna ficado presa no quadro? Irei ficar bem? Parei de rodopiar. Estou de barriga para cima e tento imediatamente levantar-me. Não consigo, o meu corpo não me responde. Ouço o ganir da travagem de um Volkswagen Golf que pára a um palmo de mim e de lá salta um homem que me vem dizer para eu não me mexer. Não o quero ouvir, quero levantar-me, encontrar os meus óculos, voltar para a bicicleta e seguir caminho. Num instante vêm pessoas ver o que aconteceu e chegam 2 polícias que me dizem que eu tenho de sair da estrada para não impedir o trânsito. Quando o dizem já estou sentado à procura de força para me erguer. Levanto-me e vou à procura da lente que saltou dos óculos, procuro a minha mochila e inspecciono a Susana, a minha bicicleta. Está toda lixada, como eu. Saio da estrada e sento-me no passeio, enquanto continuo a dizer aos polícias que não preciso de ambulância e reparo que tenho estado agarrado ao cotovelo direito. A minha tacícula radial (um dos ossos do cotovelo, pelo que li) fracturou no impacto. Tenho o meu chapéu nas mãos – tem um bocado de carne agarrado à pala. É estranho ver a minha carne assim, desligada do meu corpo, longe, ainda quente. Só por isso me apercebo que raspei a testa e levo a mão lá, à procura da ferida. Não é profunda, mas foi uns 5cm apenas acima do meu olho esquerdo.
Desde o momento em que perdi o controlo até à minha chegada ao hospital, estive a lutar contra o meu corpo, que queria entrar em modo knockout. Tudo isto aconteceu e eu só queria arranjar as minhas coisas, montar na Susana e bazar dali depressa. Só me convenci a não voltar a pedalar quando me apercebi que estava com dificuldade em manter-me em pé. Então que fiz eu? Deixei a Susana num restaurante (onde fiquei alarmado pelas caras de surpresa e horror que vi à minha volta) e fui a pé para o hospital.
Assim se fractura um cotovelo. E tu, já tiveste algum acidente verdadeiramente perigoso de bicicleta?

Originalmente publicada em 02/2014

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