Na estrada até Peniche de bicicleta

O plano era pedalar ~90km desde o Cacém até Peniche, dormir lá a noite e no dia seguinte ir apanhar comboio de regresso às Caldas da Rainha. Uma viagem de 2 dias que já queria fazer desde os 16 anos e consegui finalmente fazer em 2013. Pensei que ia amar cada momento passado com o infinito à minha frente, horas de alcatrão por serem atravessadas, problemas inesperados. Não amei cada instante. A maior parte do tempo odiei e roguei pragas a mim mesmo por me ter posto naquela situação. “Para que estou eu aqui? O que ganho com isto?”. Passei a temer subidas de uma forma quase infantil como se temesse um castigo. Odiei a Susana. Odiei o Sol. Odiei o vento, o frio, o quente, o suor. Mal cheguei a Peniche, já tinha saudades daquelas horas na estrada e só quero para lá voltar.
Na próxima viagem, já saberei as seguintes coisas, que são muito importantes.

Preparação

Não me preparei; nada mesmo. Parte falta de tempo, parte agora-já-não-vale-a-pena. Na ante-véspera fui pedalar 20km e deu para ver que estava num mau momento de forma. Diria gordo? Não… Mau momento de forma. Nas subidas o pedal não desenvolvia e acabava a fazê-las sentado em vez de ir em pé. A mudança mais pesada quase nunca entrou por eu não ter força para a atingir. Até os braços doeram. No dia da viagem a Peniche, já ia todo rôto ao fim de 10km. Como consegui eu pedalar tanto? Por idiota que soe, foi pura vontade, cabeça em luta consigo mesma e com a ideia de desistir. Estive no limiar da cãibra várias vezes (talvez umas 10/15) e todas as vezes manobrei o esforço para escapar à cãibra. No meu caso, se a perna esquerda dava pontadas de dor, eu começava a pôr mais peso na perna direita até que a esquerda recuperasse e assim por diante. Na Ericeira há uma zona montanhosa chamada Ribeira d’ilhas e aqui estive mesmo quase a desistir.

Se queres fazer uma viagem longa de bicicleta, começa a treinar no mínimo com 4 meses de antecedência. É claro que depende do tipo de viagem e distância, mas pelo menos 4 meses serve de referência. Se não ganhares mais nada, o chamado ‘calo do selim’ fica ganho de certeza.

Bagagem

O que levar na bagageira? Comida? Toalhas? Ferramentas? Sim, sim e sim. Tudo é essencial, mas tem em atenção que quanto mais levares, mais pesada ficará a bicicleta e nas subidas isso é fatal. Levei algumas coisas não essenciais como uma chave de fendas. O que é o essencial numa viagem destas:

  • Escova de dentes e pasta, de preferência num pequeno compartimento ou saco de plástico para não ocupar espaço.
  • Toalha
  • Chinelos
  • No mínimo uma muda de roupa
  • Comida
  • Botijas de água para pôr no quadro da bicicleta
  • Chave Allen
  • Cola, lixa e remendos
  • Câmara de ar e bomba
  • Carregador de telemóvel

Tempo

A viagem começou às 7h da manhã e acabou às 20h. Entretanto, o Sol fez o arco completo no céu e quando cheguei ao alojamento já só restavam alguns raios alaranjados no horizonte a dar contorno às árvores e aos carros. Pensava que iria lá chegar às 17h e dei uma margem de 2h. A margem foi completamente ultrapassada. Prepara-te para isso e leva luzes.

No meio de tantas horas a pedalar, pensei que iria ter uma fome madrasta, mas não. Parece que o corpo regula o seu apetite de forma inversamente proporcional ao seu esforço.

Enganos no caminho

Yap, apesar de tudo ser planeado com meses de antecedência, há sempre algum engano no caminho. Neste caso, o engano foi ir por Torres Vedras, o que acrescentou cerca de 30km ao percurso. Quando reparei no erro, foi precisa muita vontade para não desmontar da bicicleta e dar-lhe um pontapé.

Alojamento

É muito importante alertar o alojamento para a bicicleta. No alojamento em Peniche, foi dada a certeza que a Susana ficaria segura num balneário fechado. Se só derem a possibilidade de acorrentar a bicicleta a um poste, eu desaconselho.

Final

Vi uma cobra morta, um rato morto e um faisão dourado. Conheci o Patrick da Alemanha, que já andou de bike no Vietnam com 40ºC. Como diria o Patrick: lixado não é sentir as pernas a escaldar no limiar da cãibra, com o Sol a queimar a nuca e as horas a voarem depressa demais para chegar ao destino de dia. Lixado é quando estamos na sala de espera para o barco de regresso a casa.

Originalmente publicada em 01/2014

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