Ivone

Escrito por Artur Anjos (pseudónimo)

Todas as histórias começam por algum lado e esta não é diferente. Começa com Ivone sentada numa mesa rectangular, comprida e estreita, dois homens sentados à sua frente. O homem à esquerda terá 40 anos, é daquele tipo de pessoa que olha fixamente para os outros quando numa conversa, à procura de falhas, deslizes que possa aproveitar na sua argumentação. De quando em vez, não intencionalmente mas sim por bazófia, ele próprio desliza e mostra o desdém que sente pela outra pessoa, com um ar trocista na forma como faz as perguntas. Olhar-se-á todas as manhãs ao espelho para contar as rugas que já aparecem no seu rosto e lamenta profundamente, quase com um sentimento poético, a falta de tempo nesta vida para atingir o pleno na sua carreira. Mede-se constantemente face ao ambicionado por si quando ainda tinha 18 anos e por vezes sente a frustração de não subir tão depressa quanto gostaria. Ivone não sabe o seu nome, por isso dá-lhe o nome de Gulliver, o gigante da bazófia. Ivone sempre teve esta compulsão de não deixar caras cirandar sem nome na sua mente. O homem à direita, Laca-man segundo Ivone, é mais falador, olha curioso pela resposta às suas perguntas e é ele quem pergunta: – Diga-me, qual foi a causa da crise financeira mundial na sua opinião? – Bem, na verdade, é discutível. Há quem diga que foi a falência do Lehman, há quem diga que foi a desregularização dos mercados financeiros nos Estados… Ivone foi dizendo esta baboseira enquanto pensava em que poderia interessar a sua opinião sobre a crise financeira numa entrevista para estágio de arquitectura. Muitas vezes já tinha estado deste lado da mesa nos seus 25 anos e já sabia detectar os olhares de reprovação ou, pior, os gestos de desinteresse por si, pela sua pretensão de querer trabalhar. Gulliver disse-lhe pausadamente que lhe ligariam a informar sobre o estado da sua candidatura ao estágio e abriu a porta a Ivone para ela sair. Em Portugal ser desempregado e jovem, ainda por cima com curso, dá direito a sugestões de emigração. “Porque não emigras? Que fazes aqui? Pára de roubar subsídio de desemprego!”. Ivone não consegue fazer sentido da posição em que se encontra, vista como inútil por patrões e sanguessuga pela sociedade. Que mal terá feito? Devia ter parado os seus estudos aos 18 anos e ido trabalhar. Não, espera, aos 18 anos a sociedade disse-lhe que se abandonasse os estudos seria uma falhada, uma (enfim) sanguessuga do estado. Ivone começa a pensar que o estado deve existir somente para alguns e isso faz sentido; os mais pobres merecem apoio social para se erguerem e viverem dignamente, reintegrando-se na sociedade para trabalhar, excepto é claro as pessoas pobres e incapazes de trabalhar. Elas merecem e Ivone encontra alguma razão neste raciocínio para justificar o seu próprio desemprego. O mais prioritário não é o investimento para criar emprego, mas sim garantir a protecção dos mais fracos. Sim, faz sentido e agora as poucas moedas que chocalham no seu bolso não parecem tão poucas, nem tão pequenas. Com certeza dará para comer um folhado de salsicha no Pingo Doce.

Originalmente publicada em 27/12/2013

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