Despedida da fendamel

Fará no próximo mês de Fevereiro 5 anos que começou a fendamel. Nestes anos, dei à fendamel a minha pessoa e inventei pessoas dentro de mim para me ajudar a criar este sonho. Falei com centenas de pessoas sobre o meu sonho e o meu maior orgulho é alguns terem passado a fendamelianos; pessoas que acreditaram em mim e me deram o benefício da dúvida. Agradeço-vos psi, Carla, Maria e Victor. Também agradeço a todos os outros, embora já cá não estejam.

Lembro-me como se fosse hoje da noite em que pensei a fendamel. Lembro-me de navegar no portátil, sem rumo para dar à minha vida e a vê-la seguir por onde eu não queria. Todos dizem que a faculdade é o melhor período da vida, com novos amigos feitos facilmente, tempo livre e experiências marcantes. Nada disto aconteceu comigo, se tanto foi-me ainda mais difícil estar num curso específico a sentir o meu potencial encurtado. Foi como que uma camisa-de-forças num maluco a babar-se. Rotina, metro apinhado, horas em paragens de autocarro, insónias. E, de repente, pensei a fendamel, tão simples e nítida. Uma aventura irreal em que poderia apostar toda a minha alma. Foi perfeita para mim, um escape capaz de me distanciar de mim mesmo, uma aventura em cada acontecimento, em cada entrevista desajeitada, em cada concerto cujo local não conseguia encontrar no meio de tanta rua nocturna vazia e assustadora. Conheci pessoas que me marcaram pela positiva, conheci pessoas que me levam a questionar porque razão existem, talvez apenas para testar a minha vontade. Mais importante que tudo conheci a minha namorada, a charmosa Graziela, numa história fendameliana com as características típicas – confusa, difícil e imensamente recompensante.

Nada do que a fendamel conseguiu foi fácil, desde os seus colaboradores que foram polvilhando o atlas mundial até às diferentes áreas em que apostou, como o ‘review my novel’, entrevistas, programa de rádio, reportagens de festivais, conversas com a fendas, concursos, leituras e mais que eu não me devo estar a lembrar agora. Talvez este seja um problema para a fendamel: tanta ideia.

E os panfletos distribuídos na rua do Carmo com um colega da faculdade? E os concertos a que fui com o meu irmão, que sempre me disse ‘vai, acredito em ti’? E a Telma, amiga do secundário, que sempre me ajudou no início da fendamel? E todas as coisas que fiz: escrever, fotografar, entrevistar, contactar, tentar vender, cativar.

A fendamel pode hoje estar bastante aquém para os seus leitores do que eu vi numa noite no final de Janeiro de 2009, mas para mim foi uma aventura que me fez melhor homem. Deu-me tudo o que eu pedi e principalmente o que não pedi. Foi com a fendamel que aprendi que lutar por um sonho não é um sprint, é uma corrida em que o senhor que ergue a faixa da meta se deixou ficar na cama a dormir e agora ninguém sabe onde é a meta. Não vale a pena negar que muitas vezes duvidei do meu sonho, talvez me sinta incapaz para o cumprir. Uma coisa no entanto nunca senti: ingratidão. Obrigado a todos os que me ajudaram a levantar a fendamel diariamente, não por dinheiro, não por fama, mas apenas por quiçá partilharem a minha crença.

Hoje, penso a toda a hora no poema If de Rudyard Kipling, especialmente esta parte:

If you can make one heap of all your winnings 
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breathe a word about your loss

A fendamel foi isso, um amontoado de sonhos e desejos que, no fim, estava destinada a não cumprir o seu objectivo maior, o de divulgar os artistas lusófonos. Não tendo conseguido chegar ao público, não pode atingir o seu objectivo. Hoje, eu e os fendamelianos devemos orgulhar-nos da fendamel, mas não a deixar limitar-nos e recomeçar do zero, nunca falando uma palavra da fendamel como um fracasso. Foi e será sempre para mim, um dos meus maiores sucessos como homem.

Originalmente publicada na fendamel em 18/12/13

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