Uma história ‘beco sem saída’

Escrito por João Cinda (pseudónimo)

Agora já não há muito a fazer; o chiar dos pneus no asfalto prenuncia o inevitável, embora o seu corpo ainda esteja a tentar loucamente desviar o carro do autocarro que vem direito contra si. A mão direita força furiosamente a manete das mudanças para meter a primeira, a mão esquerda vira o volante até ao fim ouvindo-se um clac, o pé não consegue afundar mais no travão, por muita força que a perna faça. No meio de gestos de sobrevivência que actuam automaticamente, os seus olhos focam no condutor que está destinado a chocar consigo dentro de um momento. É um motorista com 50 anos talvez, está num pânico desalmado e faz tudo o que pode para evitar o acidente. Ouve os passageiros atrás de si a gritar, tal como ele grita, embora não se aperceba. Estes dois homens nunca se viram antes, ou talvez já se tenham visto mas o que interessa isso? No carro, Gonçalo pensa à velocidade de mil pensamentos por segundo na estupidez deste acidente. O seu próprio carro, o motorista histérico, a forma tão idiota como tentou fazer uma ultrapassagem quando nem tinha pressa soam-lhe a uma situação descarada, que já estava planeada antes até de nascer. Do outro lado, o motorista funciona apenas por instinto. Olhos sem pestanejar, músculos tensos à espera do embate, mãos agarradas firmemente ao volante empurrando o seu corpo contra o assento. Se o motorista pensasse logicamente um segundo, concluiria que nesta posição os seus braços seriam partidos imediatamente após o impacto. Não há muita lógica na cabeça do motorista e os seus braços continuam esticados como paus. Mais uma vez, se houvesse lógica na sua cabeça, então perguntar-se-ia porque está tão calma a cara de Gonçalo. Como é possível aquela cara estar tão impávida enquanto o Mundo se desfaz em 20 metros de asfalto, num dia solarengo de um qualquer dia de Inverno de um qualquer ano. Para Gonçalo, este dia é tão bom para chocar de frente como qualquer outro e gostaria de discutir esse assunto a fundo com o motorista numa esplanada, em que ambos pudessem pedir um refresco ou um café quente. “O senhor motorista concordará comigo, com certeza, que morrer hoje ou amanhã pouca diferença fará no grande plano da Vida. Ou o senhor pensará que seria hoje ou amanhã que finalmente descobriria a chave da sua realização pessoal? Veja, é uma inevitabilidade chocarmos de frente e apenas lamento que tal não tenha acontecido antes”. Nisso pensa Gonçalo, dentro do seu Honda caquéctico. Quando o embate se dá, o metal do capot encarquilha como se fosse uma onda a chegar à praia, o airbag do Honda caquéctico dispara, a traseira levanta pronta a iniciar o capotamento, o banco do passageiro da frente salta livremente e irrompe pelo vidro da frente. Tombando para a esquerda, o Honda começa a capotar pela lateral do autocarro. Gonçalo ainda consegue reter a sua consciência tempo suficiente para vislumbrar o caos que corre pelo autocarro. Caos de pessoas a voarem soltas, pernas entaladas em bancos, pedaços de vidros pelo ar, o motorista desmaiado depois de ter levado uma pancada na cabeça de uma botija de incêndio. O autocarro não capota, na verdade mal se desviaria do seu caminho, não fosse a infelicidade de o choque ter levado o pára-choques da frente e a roda direita. O eixo, sem roda que o suporte, aterra no asfalto como uma âncora, levando o autocarro a guinar violentamente para a direita, rumo aos rails. Depois de 200 metros de embalo, o autocarro finalmente pára. Gonçalo abre os olhos, tenta mexer o corpo todo para saber quais os danos causados. Não consegue mexer os braços, nem as pernas, na verdade é capaz somente de inclinar levemente o pescoço. Neste momento, o seu instinto de sobrevivência irrompe abruptamente pronto a tomar as rédeas para resgatar o corpo da mente danificada que o comanda. Sossega por um segundo à escuta de algum clique, ou um pingar ou um clac, algo que lhe diga o que se passa em seu redor. Ouve gotas a embater no asfalto, pneus a rolar, gritos de pessoas na distância. Volta a sentir o seu corpo, membro a membro; o seu braço direito derrama dor pelo corpo inteiro, como se lá estivesse a dar-se um terramoto capaz de destruir tudo à volta. Sem hesitação, a mão esquerda alcança o cinto de segurança e liberta-o do seu coldre. Considerando que o Honda está capotado, desprender-se do cinto de segurança poderá ser um erro, um erro que aumentará as suas dores e possivelmente o virá a imobilizar completamente se a sua cabeça bater no tecto. Tudo isto é verdade e faz sentido, pois foi exactamente o que aconteceu a Gonçalo, que agora se encontra numa posição excruciante, pernas encostadas ao vidro da frente, pescoço pressionado contra o tecto do carro e a cabeça num ângulo recto, possivelmente obstruindo a traqueia. Sangue escorre pelos seus ouvidos.

Originalmente publicada na fendamel em 17/12/2013

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