Juliana foi a Marte

Saber que a cada dia que passa fica cada vez mais difícil mentir a nós mesmos. Quando juntamos tudo o que sabemos, tudo o que somos, podemos ver que nada resta. Quando nos apercebemos que a vida afinal não conta e somos iguais a todos os outros e a opinião dos outros conta. Porque afinal não somos Oscar Wilde, nem Fernando Pessoa, nem tão-pouco somos quem pensam que somos. Somos apenas mais uma cinza roubada à terra. E saber que as formigas que matamos hoje, são as formigas que nos comerão amanhã. Saber que no nosso funeral ninguém irá chorar. E se chorarem, irão chorar porquê? Não são eles que morrem. E saber que ao morrer não fizemos nada com as noites sonhadas. E saber que um dia tivemos vontade e força de entrar em todas as guerras, por tudo lutar, por tudo morrer. Sermos alguém. Sermos o que viveu como pensou, o que foi como idealizou. Mas olhamos, buscamos, acendemos todas as luzes, mas estamos sozinhos. E da espada nada mais há que um cigarro mal fumado; um quadro mal pintado; uma rosa mal dada; um beijo mal roubado. Nunca irás ser minha e eu nunca irei ser teu. Ainda assim, quando eu morrer, espero que estejas lá. Espero que chores, espero que sintas. Quando juntarem todos os meus sonhos não haverá folhas suficientes onde as escrever. E o Mundo irá chorar a morte de quem não conhece. Pelas esquinas, pelos bares, pelos cafés e pelos carros e pelos acidentes e pelos aviões em chamas. Pelos mares revoltados, pelos barcos de pesca afundados, pelos pescadores mortos. E por todos os que morrem sem razão e nunca irão voltar. Por todos eles e por todas as suas cabeças e mentes e cérebros e ligações químicas e eléctricas e abstractas ocorrerá um pensamento: quem morreu não foi quem dizem que foi. Fui eu que morri! É da minha carne que as moscas se alimentam; é do meu corpo que a terra se alimenta. É da minha mente e dos meus sonhos e desilusões e frustrações; tudo o que eu quis e nunca irei fazer; é disso que escrevem os livros que eu nunca irei ler. E tudo seria perfeito, tudo seria óptimo, tudo seria ideal; se tu olhasses. E as máscaras coladas à nossa cara, as roupas que nos roubaram, os dias que nos emprestaram. Como mortos esquecidos de enterrar, a deambular num cemitério abandonado.

Originalmente publicada na fendamel em 13/12/2013|Guilherme Dias (pseudónimo)

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