Sra Suzete

A minha avó é a mulher mais resoluta que conheço. Não soube da sua vida pela sua boca, não disse o que fazia antes de as suas lágrimas terem secado na sua cara e aí se deixarem estalactitar, desenhando rugas que contam horrores e alegrias numa vida começada quando eu ainda nem era pensado. Sei que a sua vida foi dura, foi um caminho atribulado em que cada incremento de bem-estar só era obtido com o seu quinhão de lágrimas e suor. Ensinou-me a jogar às cartas, comi muitos bolinhos amarelos que a minha avó me dava todas as semanas. Não me lembro ou nunca soube como se chamam. Sempre a conheci assim, para lá de mim a uma distância de tempo que eu ainda não sinto. Os seus sorrisos, uma raridade, mas quando eu a fazia rir, um orgulho pateta aquecia-me a barriga, como se o meu papel nesta terra fosse lembrar-lhe que nem tudo são atribulações. Levava-me ao parque aos Domingos e deixava-se ficar sentada no banquinho a ver-me no baloiço. Que danada era, que força da natureza! Não levantava a voz, bastava dizer ou então faria sozinha, sem ajudas. Nunca dependeu, nunca se acomodou. Trabalhou 40 anos e pedia-me para estudar, para comer bem, para a ver. Tolerou as minhas irreverências, quando eu ainda desconhecia que todos caminhamos calmamente para o mesmo destino. Do outro lado da mesa dizia-me “comes tão pouco e tão depressa”. Não há pressa maior que ser adolescente, avó. Agora que a vejo do outro lado da mesa a olhar terna para mim, miro onde a pressa me levará. A minha avó ajudou desconhecidos, oferecendo-lhes a sua casa e a sua companhia. Fê-lo com a mesma prontidão com que cortava relações com quem considerava não merecer a sua ajuda. Aprendi mais sobre mim vendo a minha avó, do que eu julgaria provável. Não sabia que ela está dentro de mim, que dentro de mim existe algo parecido com a sua determinação e aversão à desistência. A minha avó foi mãe e não foi mais doce do que considerava básico. Não foi mãe indulgente, não aceitava desperdícios. Foi mãe dura, mulher tenaz. A minha avó reservou a sua doçura para os seus netos. Disse-lhe uma vez que tinha muito orgulho por ter uma avó como ela e grato por ainda a ter. Sorriu, agarrou-me a mão e beijou-a. Disparatava com a minha avó por coisas idiotas, como as migalhas na manteiga, os meus avisos de que o chá quente escaldava, que caíam em saco rôto, com a minha avó a beber chá a ferver, sem ai nem ui. Não sei se o bebia para me mostrar que coisas piores há que chá mais quente do que o óptimo; existem obstáculos maiores nesta vida, que nada dá sem contrapartida. A minha avó lamentava eu ter de viajar todos os dias 2h30 para a faculdade. Apesar do que viveu, dos tempos de fome que atravessou, das guerras mundiais e guerra colonial que suportou, dizia-me com tremor na voz “porque tens de ir para tão longe todos os dias?”. Eu não sei porque tenho de ir para tão longe todos os dias, avó. Sei que as pessoas manobram as suas vontades conforme as circunstâncias do tempo em que nasceram. Quem me dera poder ver agora a minha avó, dizer-lhe que como bem, que passo tempo com a minha família, que me esforço todos os dias por ser melhor homem.

Originalmente publicada na fendamel em 03/05/2013

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