Confissões de um dragão entristecido

Não é este o caminho traçado por nós para nós há muitos anos atrás. Estas ruas não levam onde queremos, nem tentamos que assim o seja. Mais um ano na penumbra a lavar pratos, a fazer pela vida, a respirar por respirar, sem perder de vista o objectivo inicial: sermos o dragão que sonhámos. É aborrecido lavar pratos com um dragão de 20 metros atrás a dizer “já lavaste? Então? Despacha-te”. Ele não entende que precisa de comer antes de poder voar e cuspir chamas. Contenta-se em ser o dragão que esburaca o pensamento e carboniza a consciência. Não é grande amigo, não tenta consolar quando o dia corre mal. Não impede de comer fast-food, nem de dormir pouco. Nada disso lhe diz muito. É um sacana, que vive de esperanças e se está pouco cagando para as circunstâncias. Não haveria alívio maior que o de lhe espetar um atiça-chamas no olho, vê-lo a contorcer-se, a abalroar as paredes do nosso cérebro, a tropeçar em pensamentos, a lançar chamas sem rumo incendiando a mente. Ele voltaria e destituiria-nos do comando. O corpo seria tomado por uma vontade inabalável de trilhar as ruas certas, por mais sinuosas e bloqueadas, com uma fome de voar capaz de tornar o próprio cuspo em fogo. Isso não seria interessante de ver?

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