Reportagem festival Rotas & Rituais no Cinema São Jorge

“Não tenho tempo para ler 500 palavras de reportagem da fendamel”. Ok, o que precisas de saber em dose concentrada: a estrela de 4 noites de concertos foi Mandjeku Lengo, guitarrista de Waldemar. Dêem uma guitarra àquele homem e plantem-no no Iraque – é o plano ‘Paz no Mundo’ da fendamel. Quando os iraquianos se deixarem enfeitiçar por 6 cordas de aço, então levar-se-ia Mandjeku Lengo para o Afeganistão, depois Faixa de Gaza e finalmente Margem Sul. Nobel da Paz de 2042, és da fendamel!

Tcheka convida Mário Laginha
Tcheka, cabo-verdiano de 38 anos, convidou Mário Laginha para a primeira noite do Rotas & Rituais. No seu jeito confiante e de meio-sorriso-meio-desafio, Tcheka foi um doce para os cabo-verdianos na sala, que brilhavam ao ouvir crioulo cabo-verdiano a ecoar pelas paredes e dali voavam para Cabo-verde para dançar de pés descalços numa praia de areia fina e brisa quente ao som suave de Tcheka, num final de tarde com o Sol avermelhado no horizonte. Quando o convidado entrou no palco, foi apresentado como “um dos mestres da Música portuguesa e não só”. A partir daí, o concerto agigantou-se, cresceu e saiu das praias cabo-verdianos para ficar algures no Atlântico – metáfora esticada demais. Melhor sorte para a próxima.

Nancy Vieira convida Camané
Nancy Vieira tem qualquer coisa de ‘vou contar-te um segredo’. É o seu andar pausado, o seu falar calmo, sussurrado, intenso, a sua voz puxada do coração. “Apilini eram as mulheres dos guerrilheiros, no tempo da guerra… No fim da luta, os homens foram para a cidade e arranjaram mulheres mais elegantes, menos mulheres-do-mato. Apilini resistiram” e daí nasceu a música que cerrou a noite, ainda Camané espreitava por trás da cortina. E da cortina lá veio o Fado, Camané para o público, cantar em crioulo com Nancy Vieira. Para dois géneros tão diferentes, o Fado lá se encontrou nos cantares de Cabo-verde com raízes guineenses.

Mirri Lobo convida Rui Veloso
A noite grande, aquela em que Rui Veloso iria ao Cinema São Jorge cantar Porto Sentido com Mirri Lobo, que deu voz poderosa a este hino do cantor portuense. Por entre as luzes amarelas e vermelhas, pareceu casa cheia de gente animada com um Sábado à noite luso-angolano. Pena, pena, foi Rui Veloso ter estado em palco uns incríveis, mirabolantes, sensacionais 10 minutos. Chegar, conquistar e partir.

Waldemar Bastos convida Mingo
Alguém capaz de empolgar uma plateia de Domingo a cantar “Laranja!… Tangerina. Laranja!… Tangerina” merece toda a admiração do Mundo. E quem nem precisa do microfone para ressoar na sala enorme do São Jorge a sua voz sinuosa… bem, isso é quase espectacular e leva a pensar: “yap, valeu a pena o bilhete”. O cantor angolano, que passou por Lisboa, Berlim e algures no Brasil fechou o Rotas & Rituais na noite mais africana das 4. O convidado foi o moçambicano Mingo, que cantou sobre uma receita culinária que, não levando laranjas, nem tangerinas, parecia boa. Mas toda a comida parece boa a partir das 23h, especialmente quando tem nome exótico como Muamba.
“Parecemos poucos, mas somos muitos” disse Waldemar para uma meia-casa. Entre músicas, deu para Mandjeku Lengo puxar da guitarra eléctrica e fazer o solo do festival. Foi algo como iiii-i-i-uã-iii. Soa melhor ouvindo ao vivo.

Originalmente publicada na fendamel em 24/11/2011

Texto João Cinda (pseudónimo), Fotografia Luís Pontes

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