Reportagem Festival Músicas do Mundo 2011

Fotografia Luís Pontes

Escrito por João Cinda (pseudónimo)

O estalo de chegar e ver milhares de pessoas numa cidade do tamanho de… bem, de uma aldeia com esteróides, é assombroso. Por ruas com a largura de 10 pessoas postas lado a lado (sim, alguém achou interessante medir em número de pessoas) andou uma multidão imensa de hippies saídos de tendas com cheiro a canela, artistas sem bilhete mas com talento para horas e vendedores de bijutaria. 
Sines recebeu mais uma vez o Festival Músicas do Mundo, que se dividiu em 2 fins-de-semana com 35 concertos, 2 palcos e um desejo expresso de ser um festival de Música não-comercial, na procura do que o Mundo e as suas gentes cantam e tocam. Segundo a organização, mais de 80.000 pessoas estiveram em Sines para o FMM, passando as noites acampadas em qualquer bocado de relva, no parque de campismo e em hotéis lotados ou dormindo no carro. 


Aduf
O primeiro Domingo ficou a cargo de Aduf e Luísa Maita. Os membros da banda Aduf deram vida ao palco durante uma hora e pouco, com 4 adufos (instrumento árabe com som semelhante ao de um tambor) a manter o ritmo e a puxar pelo público que assistia ao primeiro concerto do dia. O grupo conta com o ex-guitarrista dos Madredeus, José Peixoto e o ex-Gaiteiros de Lisboa, José Salgueiro, que se uniram a Maria Berasarte e restantes músicos para criar uma Música com influências árabes e música popular portuguesa. Maria Berasarte, vocalista dos Aduf, deve ter algum tipo de manto invisível capaz de lhe dar uma pronúncia perfeita do português, despindo-o entre músicas para falar com sotaque basco. Esta pequena maravilha quase roubou o espectáculo, não fosse a sua actuação aguerrida e voz forte, capaz de deslumbrar as poucas centenas de pessoas no Castelo. 

Luísa Maita
Logo a seguir, de São Paulo e antes de partir para uma digressão na América do Norte, o FMM apresentou Luísa Maita. A cantora prometia aquecer uma noite enregelada pelo vento com a sua música boa-onda e som de um novo Brasil, com novos artistas a despontar e assumir o papel de representantes da Música brasileira. A noite não era fácil: último dia do primeiro fim-de-semana, concerto pago e frio demais para entrar no Castelo. Para uma noite assim, Luísa Maita teria de mostrar uma voz poderosa e jeito carismático, que levasse os altifalantes espalhados do lado de fora do recinto a arrebatar o público para decidir-se a entrar. A cantora paulista tem actuado em diversos palcos internacionais, depois do Brasil ter recebido bem o seu álbum Lero-Lero. Músicas como Alento provam que consegue embalar o público na sua simpatia e voz calorosa.

L.U.M.E
O segundo fim-de-semana trouxe a Sines os L.U.M.E, Lousy Guru, Cabace, Mário Lúcio e Kumpania Algazarra. Na Sexta-feira, os Lisbon Underground Music Ensemble, grupo que vai do Jazz ao improviso dos seus 15 músicos, actuaram no Castelo da mesma forma que a banda do Titanic cujo maestro diz “meus caros, vamos morrer. Pegamos no início com o trombone e os restantes acompanham”. Os L.U.M.E são o instrumental na sua perfeição e, com toda a seriedade de um trompete, a banda mexe com o público e deixa-se levar por caminhos nunca repetidos do improviso em palco. O grupo percorre Portugal e aventura-se em Espanha, não sendo difícil prevê-los a uma distância maior de Portugal nos próximos anos. 

Lousy Guru
Do Castelo para a Avenida Vasco da Gama, onde os concertos gratuitos serviram como uma gota de sangue num aquário de tubarões, o 3º dia do segundo fim-de-semana continuou com Lousy Guru, o grupo lisboeta cujo álbum As big as divided saiu em Fevereiro. Os Lousy passeiam-se por estilos, por línguas e até por membros, naquilo que parece uma desorientação deliberada e sem intenção de encontrar um estilo único de música. Esta desorientação resulta em palco e dá ao público muito em que pensar. 

Cabace
No Sábado, último dia de FMM, Cabace pegaram no palco e deram-lhe um toque Reggae africano, cantando em português, inglês, francês e em crioulos. Os Cabace afirmam-se uma fusão afro-soul-reggae e desde a sua criação, em 2009, venceram o Rock Rendez Worten 2010. De lá para cá, ainda são uma banda revelação da música africana e deixaram o público do Festival cativados pelo som aceso da sua música. 

Mário Lúcio
Seguindo a onda africana, o FMM prosseguiu no Castelo com o ministro da Cultura de Cabo-Verde, Mário Lúcio. Artista consagrado da música africana, Mário Lúcio teve recinto a abarrotar no Castelo, com milhares a ouvir a sua música dentro e outros tantos a ouvi-la fora do recinto. A cantar em português ou pedindo para “cantar em crioulo”, Mário Lúcio soube não desapontar o público e aproveitar a casa cheia. 

Final do FMM – Kumpania Algazarra
Ao fim de 2 fins-de-semana de Música, de ruas cheias, batuques improvisados em qualquer bidão de água e um certo sentimento de ter estado num Festival de sonho com milhares de pessoas numa cidade linda com vista para o Atlântico, os Kumpania Algazarra devoraram o palco e levaram o público ao sétimo Céu numa espécie de ping-pong de energia, com euforia no ar. De todos os concertos, os Kumpania foram a banda-na-boca de toda a gente, aquela a que todos queriam ir e na que o público iria dançar, levantar o pé e gritar as músicas da banda. O som dos Kumpania parece uma ratazana embriagada em cafeína, com dedos para tocar qualquer instrumento e uma alegria que levantaria os mortos, se os mortos fossem iguais aos dos filmes de ficção científica.
No final do FMM 2011, cama, bolachas e óculos de sol.

Originalmente publicada na fendamel em 01/08/2011

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