Entrevista BAR

Estará o Rock a desaparecer, ou simplesmente não o queremos encontrar? Estivemos com a Sara, Inho e Clem dos BAR.
(Texto com cortes, edição completa em video)

Diana – Como surgiu a banda e porquê o nome Bar?
Inho – Eu estava noutro projecto que tinha terminado na altura, e não sabia muito bem o que fazer da minha vida em termos musicais, então o vocalista dessa banda conhecia a Sara, falou-me dela, encontrámo-nos e a partir daí começámos os dois a fazer músicas. Passado uns tempos entrou um baterista, depois um baixista, entrou outro guitarrista e aqui estamos.
Clem – Em relação ao nome, pelo menos o que é mais conhecido, é uma pequena homenagem a um grande actor que o nosso baterista gosta bastante, que se chama Claus Bar e que tinha por particularidade fazer filmes pornográficos no deserto.
Inho – O Filipe, nosso baterista tem uma enorme colecção em casa e discutiu-se uma vez que em vez de se chamar Claus Bar, Bar era mais interessante, e ficou.Diana – Quem escreve as letras das músicas e de onde vem a inspiração?
Sara
– Eu escrevo as letras das músicas e a inspiração vem do dia-a-dia, da vida, dos bons e maus dias, de tudo o que acontece, do que quer que seja.Diana – O vosso som faz me lembrar a sonoridade rock dos meados dos anos 90, quais foram as vossas influências? Em que estilo se insere a vossa musica?
Sara
– Em termos de influências nós somos cinco elementos muito diferentes e ouvimos dos mais variadíssimos tipos de música, eu e o Clem ouvíamos muito grunge dos 90, o Inho ouvia mais heavy metal, mas é o fiel ao rock puro e duro, o Filipe também penso eu. O Fred é o nosso elemento mais velho, tem uma escola belga (ele é belga) de música, uma panóplia enorme de bandas, completamente diferentes e de outra geração. Mas em termos de influências, eu penso que todas estas bandas devem ter a sua marca nas nossas composições, mas tentamos não seguir nenhuma tendência e não nos parecer muito com determinadas bandas e exactamente o contrário, quando achamos que estamos a ser demasiado parecidos com alguma banda, eliminamos.
Em termos de estilo, se querem apelidá-lo de pop, trash, alternativo, indie, o que quer que seja, eu penso que é Rock. Todos esses rótulos são muito discutíveis mas tem um pouco de influência de tudo.

Diana – Já deram vários concertos, alguns de realçar, como Aula Magna e Hard Rock Café, qual o que mais vos marcou até agora e porquê?
Sara – Pisar o palco da Aula Magna foi durante pouco tempo, mas foi um momento único, porque todas as vezes que estive lá a ver bandas e pessoas que adorava e partilhar aquele palco, pisar aquele palco, que todas aquelas pessoas já pisaram, foi um bocadinho emocionante.
Inho – Acho que o palco mais marcante será o Santiago Alquimista porque foi aí que nos estreámos, e é uma sala com algum nome.
Clem – Para mim, um local que me marcou bastante foi Alcabideche, em que tocámos para uma pessoa. E então estávamos num pavilhão e só havia uma luz, e essa luz estava a incidir exactamente sobre essa pessoa, mas lembro-me de estarmos a tocar, fizemos o concerto à mesma como se fosse para mil pessoas e estarmos contentes por ela lá estar e isso marcou-me no sentido de união de banda.

Diana – São bastante conhecidos e aclamados na internet, essencialmente por um público jovem, um Rock forte e “incendiário”, como é o vosso, é o que eles precisam actualmente?
Inho
– Sem dúvida. Enquanto existir malta nova, tem que existir algo que incendeie.
Sara – Eu acho que acima de tudo, tem que continuar a haver muita competição, tem que se continuar a ouvir cada vez mais bandas novas, e acho que é importante o facto de arriscarem e cantarem em português. É um risco começar, também foi um bocado complicado para nós, até porque fazer letras em português, mas quando se entra e se ganha o jeito é muito difícil voltar para trás e cantar noutra língua.

Diana – Qual a vossa opinião em relação ao rock que se faz actualmente em Portugal?
Clem – Pessoalmente acho que se faz boa música em Portugal, sendo Rock ou Fado, no geral a música portuguesa que se faz hoje em dia é boa. Não vou entrar naqueles clichés de que o mercado está um bocado fechado, está, nós já sabemos e acho que no fundo, se pegarmos nos vários estilos que há de música, têm as suas boas bandas e indivíduos a criarem música e isto pegando na pergunta anterior, o público só tem de estar de ouvido aberto e receber bem os músicos porque acho que é altura de deixarmos de pensar que só o que vem de fora é que é bom. Há que fazer só uma força e as vezes não fumar um maço de cigarros e pagar cinco euros para ver uma banda portuguesa, seja de que estilo for, mais ou menos intelectual, mais popular ou menos popular. Porque no geral, a música é boa.
Sara – E há muita música boa e desconhecida, porque quando surge uma determinada tendência dentro do rock, as pessoas tendem a colar-se àquele tipo de bandas e às bandas muito parecidas com essas. Por esse país fora há muitos bares que têm bandas originais a tocar, e normalmente os bilhetes não são muito caros, as pessoas é que preferem ir jantar fora ou fazerem outras coisas e pagarem muito mais do que dar cinco ou sete euros para ir a um concerto, em que se calhar vão haver duas ou três bandas completamente diferentes e com música original e percebem que o Rock não está só a seguir por ali, mas por muitas vertentes, e é preciso perderem aquele tabu de irem só aos concertos de bandas conhecidas e arriscarem e ficarem alegremente surpreendidas.

Diana – Estão em estúdio pela 3ª vez, o que é que o público pode esperar deste novo álbum? E vocês, o que esperam?
Sara – Mais músculo nas músicas. As músicas que estamos a gravar foram compostas por todos os elementos e antes éramos só três, e algumas das músicas do Ep anterior tinham sido só feitas por esses três elementos, que eram eu, o Inho e o Filipe. Agora as coisas estão mais bem construídas, as vontades estão mais unidas, os gostos, todas as tendências uniram-se para criar uma coisa muito mais forte.
Inho – Felizmente para nós, está diferente do que gravámos anteriormente, acho que é uma grande vitória, porque se fizéssemos a mesma coisa, acho que seria a morte do artista. Tentar sempre renovar, é muito importante.

Diana – Para quando está previsto o lançamento?
Sara – Talvez no princípio do ano, nós neste momento ainda estamos em estúdio, ainda falta a parte de mistura, da remasterização, a parte da edição dos Cd’s, todas essas coisas que são necessárias, mas penso que no início do ano estejamos a projectar o lançamento do álbum pelo menos, a nível de Fnac’s, Internet como é óbvio. Não sei ao certo se será Janeiro ou Fevereiro, mas por volta dessa altura penso que estará tudo pronto.

Diana – Já têm nome para o álbum? E irá ser de edição limitada como o anterior?
Clem – Nome, eventualmente não. Nós, tal e qual como a nossa música, caímos muito no momento que estamos a passar, e naquilo que acontece e gostamos de deixar a nossa marca, aliás, muita coisa na vida se passa assim. Nós normalmente somos assim, somos crentes, personalidades muito marcadas, e vivemos muito assim “Acontece. Faz. Criou. Ficou bom”. Não imagino que para já, pelo menos acho que nem sequer falámos nisso, para ser sincero (risos). A nível de design, já está a ser tratado.
Inho – Em termos de edição, vai ser uma edição limitada. Todo o dinheiro que nós gastamos vem do nosso bolso, e eu gostava muito de fazer uma edição de cem mil discos, claro que gostava. Mas tenho sérias dúvidas que alguém fosse comprar esses cem mil discos e nós queremos claro, chegar ao maior número de pessoas, mas temos que ser realistas. Vamos vendo, 500, 1000, os que forem, se virmos que está a resultar bem, possivelmente fazemos uma nova edição, mas com a Internet…
Clem – Sim, e este novo CD, em princípio, vai estar à venda já nas Fnac’s, nos sítios certos. Os nossos CD’s têm a particularidade de ter um design original. E vamos tentar ter mais ideias nesse sentido. Portanto, acaba por ser não só pela música, mas também, porque a música poderiam sacar na Internet, mas para ter o objecto, que será…
Inho – O físico.
Clem – Exacto, que será interessante ter.
Sara – Para vender um CD hoje em dia, como ele disse e bem, nós apostamos muito na Internet e não vai deixar de ser um EP, não um álbum completo. Vai ser um EP para apresentar novas músicas, o caminho que estamos a seguir. E, no fundo, colocando as músicas na Internet para ouvir e talvez para fazer download. Mas para vender temos de dar algo mais e é muito importante dar qualquer coisa, como um CD original. Mais qualquer coisa que a música. E é nesse sentido que vamos trabalhar para justificar, neste pé que estamos, pormos à venda o CD nas lojas.

Diana – O Ep lançado em Fevereiro deste ano contou com sete músicas, quantas estão previstas para este?
Sara, Cem, Inho
– Para este 6.

Diana – Participam em muitos concursos de bandas, qual o vosso objectivo? Por prazer, procura de novas influências e sonoridades, serem descobertos por alguma editora?
Inho – Eu tenho sérias dúvidas que alguma editora ande a ver os concertos de música moderna. Muito sinceramente nós participamos nos concursos com o intuito de tocar.
Clem – Mostrar a nossa música.
Inho – É o grande objectivo, é tocar. E foi uma opção. Já tínhamos feito uma opção de não participar em concursos, e depois… repensámos. Voltámos a participar. Ganhámos alguns, não ganhámos outros. Mas é sempre muito complicado quando se entra num concurso de música… é uma competição. E é algo que faz muita confusão, pelo menos a mim, é: Arte e competição.
Clem – Nunca vimos um Cézanne a competir com um Picasso, o Miguel Ângelo a competir com o Da Vinci. Isso é uma coisa que ainda hoje acontece. Acho que os músicos devem garantir a sua qualidade. Acontece nos concursos às vezes as bandas nem estarem interessadas em ouvir as outras bandas. A procura de influências não será, nós queremos é mostrar a nossa música. E no fundo, os concursos que acabamos por ganhar, acabam por ser investidos no novo CD.
Sara – Os nossos fundos são construídos através dos concursos. Foi óptimo.
Inho – E agora imaginam os sacrifícios – não sei se são sacrifícios – que nós temos de fazer para tocar. Nós vamos tocar ao Norte, num concurso para tocar três ou quatro músicas. Fazemos a viagem no próprio dia, dormimos lá, depois voltamos no dia a seguir e isto para tocar quatro músicas.
Sara – Sem alojamento, sem refeições. Eventualmente alguns sítios organizam.
Clem – Muitos ainda se chamam concursos de música moderna portuguesa, eu ainda não percebi porque é que nós temos de tocar sempre uma cover. Porque se são bandas de originais, à partida assumem os originais que têm e assumem a sua identidade original.
Sara – Nós somos incendiários. Mas em relação aos concursos conhecemos muitas bandas, muita gente, com muito boa música e eu acho que os concursos são uma grande oportunidade que continua a ser dada aos músicos pelo país fora. O público está sempre lá e o público é o mais importante. Seja num buraco, seja no Pavilhão Atlântico, estamos ali pelo público. Se eles não estiverem ali, estamos em casa.
Inho – Mas, resumindo, para se sentir a felicidade, tem de se sentir também a dor.
Clem – No próximo concerto eu prometo que te mando com um amplificador em cima.

Diana – A música para vocês é uma necessidade? Imaginavam fazer outra coisa?
Sara – Eu imaginava-me a fazer muita coisa, mas não me imaginava sem música.
Inho – Nós não somos profissionais da música. Eu não sou.
Sara – Eu também não.
Clem – É um sonho de criança.
Inho – É isso mesmo, um sonho de criança. E acho que hei-de ter 80 anos e vai continuar a ser o meu sonho. Vou passá-lo para os meus netos e obrigá-los a tocar guitarra.
Sara – Acho que todos os elementos da nossa banda têm isso em comum. Penso que, melhor ou pior… há muitas bandas que o pessoal vai lá para ir tocar com os amigos, para beber umas cervejinhas e tal, mas eu acho que nós nos juntamos mesmo porque gostamos de música. É o que gostamos mais.
Inho – Nós encontramo-nos num ponto da nossa carreira – carreira entre 500 aspas – em que podemos fazer tudo o que quisermos. Acho que é muito bom. Mas se nós formos ver as bandas portuguesas, quantos é que são realmente profissionais da música? São aquelas que já andam aí há muitos, muitos anos e que tiveram e que têm muito, muito sucesso. Não é fácil em Portugal viver só da música.
Clem – Sim, mas não é impossível. Acho que é o sonho de qualquer criança poder ter sucesso naquilo que faz. Posso pintar paredes, andar a limpar chão, mas não me imagino a não fazer música. Isso é o essencial. Eu lembro-me de ser pequenino e adormecer com phones a imaginar-me, a sonhar a saltar nos concertos (risos).
Inho – Eu também.
Sara – Pois, eu também.
Clem – E portanto, no caso destas 5 pessoas é um sonho de criança que existe em todos.
Sara – Se não acreditássemos nem tivéssemos uma mínima esperança não estávamos aqui. E para isso estamos a trabalhar.
Inho – É importante é que as pessoas possam fazer aquilo que gostam, é por isso que eu digo que podemos fazer aquilo que quisermos neste momento.
Sara – Exacto, é um privilégio e então se conseguirmos viver disso, então é sonho cumprido.

Diana – Mesmo em gravações têm previstos alguns concertos?
Clem – Não, para já não. Esta gravação foi, se calhar demasiado, mas foi bastante pensada. Houve uma pré-produção feita com calma. Houve questões que nós tivemos mesmo de preparar, porque nós viemos de uma vaga de concertos e quisemos mesmo estar a 100% virados para as gravações, com calma, acordar com a cabeça limpa, não acordar a 200 porque “onde é que está o amplificador, ah está dentro do carro, mas onde”, não. Quisemos realmente fazer uma coisa com calma e portanto, para já, estamos estacionados.
Sara – Aqui, neste local, como vêem. O nosso estacionamento.

Diana – Quais os vossos projectos para o futuro, além do lançamento do álbum?
Clem – Concertos, concertos…
Sara – Lançar mais álbuns.
Clem – Concertos.
Sara – Fazer mais música.
Clem – Concertos
Sara – E conseguirmos chegar ao maior número de pessoas.
Clem – Concertos.
Inho – Fazer cada vez melhores músicas.
Clem – Concertos.

Originalmente publicada na fendamel em 13/11/2009

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s