Entrevista a Noiserv

Vídeo de Graziela Costa

Noiserv é o projecto indie acústico do músico David Santos que editou em Outubro de 2008 o seu primeiro álbum “One Hundred Miles From Thoughtlessness” e o qual encontrámos durante o MoteLX para uma entrevista.

Graziela Costa – O teu projecto nasce em 2005 com três músicas que compuseste para o Termómetro Unplugged. Qual foi a ideia para participares neste projecto?
David Santos – Na altura tinha uma série de outras bandas e tinha uma guitarra acústica e como todas as pessoas que têm uma guitarra acabam sempre por fazer músicas sozinhas e depois não se encaixam nas bandas que têm. Na altura soube do Termómetro Unplugged e vi que eram um concurso totalmente acústico, então porque não tentar gravar essas três músicas no formato acústico que era o formato que elas tinham e tentar mandar e se por acaso for escolhido era uma experiência e a ideia de dar também o meu primeiro concerto, seria como uma brincadeira, percebes? Pronto, a ideia à partida foi mesmo uma brincadeira. Gravar as músicas que eu tinha que eram mesmo só essas três e até as gravei no dia antes de acabar o prazo e depois enviei mas estava sem expectativas nenhumas. E depois acabei por ser seleccionado e ir lá dar o meu primeiro concerto, depois a partir daí continuei.

Graziela Costa – Foi nessa altura a Merzbau entrou em contacto contigo?
David Santos – Quer dizer, o Termómetro Umplugged foi em Março de 2005 e acho que gravei aquilo para aí em Fevereiro e conheci o Tiago mais tarde para aí em Junho, portanto para aí três meses depois, conheci-o através de uns amigos meus e aí mostrei-lhe as músicas que tinha e ele mostrou-se interessado em editar aquilo na Merzbau. À partida, não havia nenhuma ligação quando eu fiz as três músicas. Aquilo era mesmo só para concorrer percebes? E ele depois acabou por descobrir e perguntar se eu teria interesse em editar e eu disse porque não, nem sequer percebia nada do que era editar, não sabia de nada. Então foi aí que comecei a ligação com a Merzbau.

Graziela Costa – Em Outubro de 2008 lançaste o teu primeiro álbum, como foram estes cerca de três anos de evolução? Já que és tu o responsável por todas as composições, como foi esse processo?
David Santos – É assim, na altura como eu estava a dizer à bocado, eu tinha uma série de outras bandas, que por uma série de divergências foram acabando. Então, ao acabarem as bandas vi-me com uma série de instrumentos que na altura não faziam parte desse tal projecto acústico que eu tinha, mas vi-me quase na obrigação de usar tudo o que tinha num só projecto. Então, nesses tais três anos, porque eu acabei por gravar aquilo em Março de 2005 mas depois só editei na Merzbau em Junho e o primeiro concerto que dei a seguir, foi já em Janeiro de 2006, acabaram por ser só dois anos e meio e foi descobrir todo aquele novo processo que já tu viste ao vivo, tipo tocar uma série de instrumentos. Portanto foram quase três anos a descobrir uma maneira de conseguir usar todos os instrumentos que tinha e sozinho fazer uma coisa um bocadinho mais complexa ou bastante mais complexa do que aquilo que tinha feito por brincadeira em 2005.

Graziela Costa – Agora vais fazer uma digressão pela Alemanha, Escócia e Reino Unido, isso faz com que estejas em contacto com mais editoras? Por exemplo, agora tens o vinil.
David Santos – Hum. É assim, eu acho que essas coisas são pequenas batalhas que a pessoa vai fazendo não com o objectivo concreto de conseguir nada. Porque se o objectivo fosse esse, a pessoa teria expectativas demasiado altas para o que vai fazer, mas acho que Portugal é demasiado pequeno e faz sentido que a gente tente tocar lá fora e tente mostrar as coisas lá fora. E a primeira vez que toquei, que já foi em Abril, fui à Alemanha e à Áustria, quase por brincadeira, foi uma experiência porque me apeteceu tocar lá fora, a partir daí criei uma série de contactos, contactos esses que me vão permitir agora, voltar à Alemanha e através desses contactos e de outros contactos que consegui com o disco, consegui ter o tal vinil e através dele vou conseguir ir à Escócia e a Londres em Novembro, portanto eu não ponho como meta descobrir editoras ou tipo descobrir grandes agentes ou grandes coisas. A ideia é, aos poucos e poucos ir construindo e travando pequenas batalhas para ter vários contactos. Não tenho um plano definido. Agora até ao fim do ano quero dar X concertos naquele para descobrir três ou quatro editoras porque acho que hoje em dia as editoras que existem são muito poucas e as que existem, eventualmente têm interesse numa coisa que não seja dinheiro garantido à partida e se tu és de um país estrangeiro nunca és dinheiro garantido porque, para além de não seres conhecido no país, não tocas muito lá. Eu acho que aquele velho sonho de mandar maquetes para uma editora, depois ela chamar-te e seres um sucesso, isso já não existe. Quer dizer, pode existir um ou dois casos, mas para a maioria isso não acontece.

Graziela Costa – E qual a razão porque cantas em Inglês?
David Santos – Epá, isso é só porque não sei… Não é que seja mais fácil, foi porque foi aquilo que me saiu quando gravei a tal maquete em acústico e a partir daí nunca vi a necessidade ou obrigação. Porque acho que a língua não deve ser uma barreira. Eu acho que, a pessoa deve cantar na língua que sente que as palavras não que façam mais sentido, mas que em termos musicais funcionem melhor. Se calhar, como tudo aquilo que ouvi desde novo era em Inglês tenho na cabeça uma parte melodiosa de voz muito mais Inglês do que em Português. Mas, não ponho nada contra até porque agora até estou a fazer a banda sonora para um filme e tenho de fazer uma música em Português, que até vai ser um desafio porque tenho um bocado de receio que possa ficar mal porque não estou nada habituado, portanto não é por nada de especial, foi mesmo porque foi assim que aconteceu.

Graziela Costa – Tens agora uma remistura da “Tokyo Girl” pelo Dollboy como é que surgiu isso?
David Santos – Lá está, isso é outra vez aquela ideia que eu te estava a dizer à bocado de ir conhecendo várias pessoas. Através de uma loja em Londres onde eu tinha o disco à venda consegui ter o contacto da tal editora da Escócia que editou o vinil e através dela cheguei ao Dollboy, porque ele, era um músico amigo deles. E propuseram-me “Olha o que é que achas de fazermos um vinil? É que eu tenho um amigo que é mais electro, o que achas dele remisturar uma música tua?” Porque o vinil no lado A é a minha música e no lado B a remistura dele. E eu disse mais uma vez, porque não?

Graziela Costa – É que a música está totalmente diferente da tua. O que é que achas disso? Como te sentes em relação à tua música alterada assim, talvez um pouco diferente do que tu se calhar imaginavas?
David Santos – Eu acho que, uma pessoa, pelo menos a mim acontece-me…. Eu ao fazer uma música é com muito custo que as consigo ouvir como um simples espectador, portanto a mim já me faz confusão quando oiço as minhas próprias músicas. Então ao ouvir a remistura dele acaba por ser um bocado o mesmo. Ouço um pouco mais facilmente como sendo uma música de outra pessoa, mas, a partir do momento em que entra a minha voz e os meus instrumentos aquilo baralha-me de tal forma que eu consigo dizer “Pá, acho que está engraçado, principalmente porque está completamente diferente.” E acho que, dentro do género tem qualidade. Portanto, acho que sim, não vejo como um ultraje. Achei mesmo piada quando ele me mostrou, achei muito fixe.

Graziela Costa – Estive a ouvir o álbum e reparei uma coisa, o nome das letras, por exemplo a “Welcome Party”, a “Consolation Prize” e a “For The Ones Who Left Me” estão relacionadas? Aliás o nome do álbum “One Hundred Miles From Thoughtlessness”, é um caminho que tu percorreste, ou seja, o que é querias dizer com este título?
David Santos – A ideia do título do álbum é exactamente aquele percurso que eu estava a dizer à bocado ou seja, isto em 2005 quando começou, era uma coisa muito simples, nada pensada, feita de um dia para o outro, gravada de outro dia para outro, enviada e depois logo se vê. Quando decidi fazer um disco mais complexo, foi quase como uma viagem a afastar-me desse objectivo que parecia muito simples e até a capa do disco que é tipo um bloco de notas, é como se fosse o bloco de notas dessa tal viagem. Então a própria música a “Welcome Party” é como se fosse o inicio dessa viagem e tudo o resto é tudo o que me foi acontecendo imaginário ou real durante estes três anos.

Graziela Costa – Quando eu falei contigo em Aveiro há alguns meses atrás tu disseste-me que tinha sido a tua prima a fazer as ilustrações do álbum, como surgiu isso? Foi ela que tipo ouviu o teu álbum e pensou nas ilustrações ou tu deste-lhe alguma ideia do que querias?
David Santos – Ela é minha prima, mas é uma prima mesmo muito próxima, quase como se fosse minha irmã, eu tenho 27 e ela tem 26 portanto nós vivemos sempre juntos e eu sempre a chateei com música e ela sempre me chateou com desenhos. Já a capa do ep tinha sido ela a fazer a capa e nessa altura foi “Pá ó Diana preciso de uma capa, faz-me aí um boneco qualquer para eu mandar.” então quando pensei em fazer um disco mais complexo e mais sólido nunca me passou pela cabeça arranjar outro tipo de capa, porque ela tinha conseguido com a primeira capa uma identidade para o projecto com aquele bonequinho que supostamente era eu. Então a partir daí achei que faria sentido dar continuação aquele boneco e aquele mundo que ela tinha criado para o próximo disco que faça irei sempre contar com ela porque acho que consegui uma identidade não só musical mas também visual.

Graziela Costa – Qual é a mensagem que queres transmitir com este álbum?David Santos – Eu acho que quando o projecto é só de uma pessoa, a pessoa pode ter grandes mensagens tipo grandes manifestações e grandes ilusões, mas acho que quando não é assim, quando uma pessoa não tem uma ideia assim tão vincada em termos políticos ou esse tipo de coisas, aquilo acaba por ser um pouco aquilo que nós somos. Portanto, eu não tinha a ideia de transmitir isto ou aquilo. As músicas foram saindo de momentos em que eu estava em determinado estado de espírito e ao juntar tudo aquilo acaba por ser um bocado o que eu fui e tenho sido durante estes três anos por isso, é que eu fico espantado quando me dizem que gostam das minhas músicas porque se gostam das músicas então gostam de mim, já que aquilo não é nada mais do que o que eu sou, nem tenta ser nada mais e a mensagem acaba por ser essa, se calhar é até um pouco egoísta, ou seja, não tento com as letras ou com o disco mexer ninguém para fazer algo. Não é uma cena para motivar ninguém a fazer algo é apenas uma maneira de eu expressar aquilo que sinto e as próprias letras algumas vezes acabam por ser conflitos individuais muito grandes, outras vezes são histórias tristes ou felizes que me aconteceram. Mas, sempre tudo muito centrado em mim, tanto que o álbum acaba um pouco por ser eu próprio.

Graziela Costa – Nas tuas influências no Myspace tens como número os Radiohead é a tua banda favorita?
David Santos – É assim, não sei se é a minha banda favorita, mas é a banda com a qual eu aprendi a gostar dos efeitos extra acústicos. A banda com a qual eu comecei a ficar fascinado com uma série de instrumentos, porque há uma série de sites na internet onde tens listagens dos milhares de instrumentos que eles têm, portanto a partir daí foi a banda que com a qual eu comecei a aprender que a música não é só o que ouvimos, tipo todos os arranjos que conseguimos interpretar, que a pessoa quando ouve sem estar com atenção parece que é só um bombo, mas se ouvires com atenção a música tem uma série de pormenores. É a banda com a qual eu me identifiquei mais por todos os arranjos e por todo o cuidado que eles têm à volta das músicas de se poder assemelhar muito com aquilo que eu possa vir a fazer ou que já tenha feito e além disso, claro que gosto muito da voz dele, gosto muito das músicas que eles fazem. Não sei se é a grande influência, mas é a influência que eu mais admiro.

Graziela Costa – Há muito tempo que se fala dos Radiohead virem a Portugal, imagina que te chamavam para fazeres a primeira parte do concerto deles?
David Santos – Isso é uma daquelas coisas que eu costumo dizer “Isso era um dos meus sonhos.”, mas acima de tudo era fazer uma música com o Thom Yorke.

Graziela Costa – Eu outro dia vi um concerto teu e tocaste duas músicas novas, já fazem parte do novo álbum?
David Santos – Não está nada gravado, mas são ideias, uma delas já é mesmo uma música terminada que irá fazer parte do novo disco, que espero começar a gravar em Janeiro, porque este disco tem tido até bastante receptividade das pessoas, têm surgido uma série de concertos e então decidi até para facilitar um pouco a agenda e a questão da minha disponibilidade para gravar novas músicas, até ao fim do ano continuar a promover o CD e a partir daí acabar com os concertos e em Janeiro começar a gravar o disco com ideias de o editar já no fim do próximo ano.

Graziela Costa – Participaste também no Novos Talentos Fnac.
David Santos – Sim, com outros dois projectos. Com o outro projecto que tenho com a minha namorada que se chama Kids On Holidays e com uma banda que tenho com uns amigos meus que se chama You Can’t Win Charlie Brown. São projectos um bocadinho… Lá está, como eu te estava a dizer à bocado eu gosto muito de música e de tudo o que envolva música e o Noiserv acaba por ser um bocadinho tão egocêntrico, egoísta e tão centrado em mim que às vezes acaba por me massacrar demais e em vez de fazer música por prazer completo, acabas por pensar “Não, isto tem de transmitir aquilo que eu sinto.” Portanto, se não estou a conseguir isto vai ficar mal e tenho muito perfeccionismo e muitas indecisões e sabe bem, então manter outros projectos nos quais apenas desfruto mais o momento e a música que estamos a fazer, como não tenho tanto perfeccionismo é quase como se fosse uma terapia para depois no outro projecto mais centrado em mim conseguir se calhar, fazer melhores coisas.

Graziela Costa – Tu tens aquela coisinha. Eu achei muita piada, que é uma luz…
David Santos – Ah o candeeiro. Sim sim.

Graziela Costa – Foste tu que fizeste?
David Santos – É assim, aquele candeeiro e eu nem devia dizer isto… Aquele candeeiro, foi um candeeiro que eu na minha viagem de finalistas no 12º ano… Portanto isto, já foi para aí há dez anos ou há nove, não há sete anos para aí. Sete anos sete anos. Foi um candeeiro que um amigo meu roubou da parede em Palma de Maiorca e na altura ele arrancou aquilo e tipo tinha posto aquilo na mala dele, mas depois quando estávamos a vir embora disse “Epá isto não cabe na mala vou deixar aqui” e eu na altura pensei, mas já que tiraste isso vou levar essa porcaria, então pus aquilo na minha mala e trouxe para cá. Depois aquilo esteve uma série de tempo lá no armário sem fazer nada e na altura em que comecei a dar os primeiros concertos achei que faria sentido uma vez que, o nome ainda por cima não é assim tão simples de dizer. Podia ter algo em que o nome estivesse sempre exposto para a pessoa poder até fixar o nome e até poder ir ganhando alguma intimidade com o nome. Depois já não sei porquê lembrei-me que tinha aquele candeeiro e que podia ser engraçado fazer algo como uma saída de emergência em que o nome seria aquele e acabei por ser eu próprio a construir aquilo, aquela folha de acetato imprimida e colada ali.

Graziela Costa – Pois, achei piada e fica muito bem nas fotos.
David Santos – A ideia era também, conseguir criar um cenário extra à música.

Originalmente publicada em 16/10/2009

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