Entrevista a José d’Almeida e Maria Flores

José d’Almeida e Maria Flores são artistas plásticos, com exposições fotográficas no CCB, na galeria de S.bento… Recentemente venceram a 12ª edição do Concurso de Fotografia de Corroios.
Em baixo segue a entrevista que concederam ao fendamel:

1. Qual o vosso percurso até hoje?
José d’Almeida – Tivemos n profissões, n actividades, até que a pintura foi sempre surgindo, esteve sempre em paralelo nas nossas vidas. Não nos conhecíamos, mas a pintura como expressão artística…
Maria Flores – Ele estudou na António Arroio em Artes Gráficas e eu fiz pintura nas Belas Artes e conhecemo-nos por causa da pintura. Ele pinta também, de uma forma autodidacta e conhecemo-nos num grupo de pintores, de artistas e foi isso que fizemos, antes de começarmos a fotografar.

2. Como foi o salto da pintura à fotografia?
José d’Almeida – Da pintura à fotografia é apenas um pequenino passo. Acaba por ser… A fotografia para nós é um meio de expressão plástica e da pintura à fotografia foi apenas um pequenino passo. O que a Maria estava a dizer: conhecemo-nos através da pintura. Foi a pintura que nos uniu inicialmente e depois por uma questão de tempo, por uma questão de economia e tempo e de outro tipo de economias, enveredámos pelo caminho da fotografia e hoje corre também paralelo os projectos de pintura…
Maria Flores – Não deixámos de pintar. Simplesmente foi mais uma coisa que começámos a fazer, entre outras coisas.

3. Alcançaram o 1º Prémio de Fotografia em Corroios (12º Concurso Fotografia Corroios). O que se ganha em prestígio/dinheiro num concurso fotográfico em Portugal vale a participação?
José d’Almeida – É uma projecção, obviamente, e uma visibilidade do nosso trabalho. A gente trabalha e seria hipócrita da nossa parte dizermos que nos estamos nas tintas entre aspas para aquilo que possam dizer do nosso trabalho. Não, claro que temos ali feedback. Temos por vezes feedback positivo, boa parte das vezes. E é uma maneira de tornarmos visível o nosso trabalho. Saber o que… Perceber se as pessoas gostam, qual é a empatia que têm com o nosso trabalho. E a própria visibilidade que dá qualquer tipo de concurso, qualquer tipo de projecção. Seja um concurso, seja uma exposição numa galeria, meramente a galeria de S. Bento.

4. Desde a ideia da fotografia até ao flash, como é o processo?
José d’Almeida – Passa por vários caminhos. Nós temos vários caminhos. Há alturas em que surge com, como costumo dizer, com um clique. É intuição. Não raras vezes até tem surgido naquele momento de semi-vigília, em que estamos a dormir, estamos acordados e qualquer coisa nos salta, uma ideia, que depois acabamos por, no dia a seguir, dar-lhe uma consistência, começar a projectar, a arquitectar o conceito e depois então partimos para a concretização da própria fotografia, em termos físicos. Outra das vezes, por e simplesmente, é apenas um rasgo, um momento de intuição. É o que nós às vezes dizemos: temos fotografias que foram feitas em 5 minutos, temos outras fotografias que levam…
Maria Flores – Fotografias mais elaboradas têm vários passos, digamos assim. Todos são criativos e vai desde primeiro a ideia, depois a concepção às vezes de adereços, depois à montagem do próprio espaço. Às vezes a ideia vai-se transformando e mutando. Depois a própria sessão de fotografia e depois pós-produção, que também é muito criativa. Tanto pode demorar 5 minutos como um mês.
José d’Almeida – Primamos sempre, o primeiro tom e o primeiro impulso é realmente sempre intuitivo. O que não quer dizer que não vamos intelectualizar, entre aspas, o conceito na altura da produção. Mas o que interessa para nós e é a oitava acima sempre, constantemente, para nós é aquela vozinha que nos segreda “é por aqui”. Aquela intuição. Aquele clique daquele momento.

5. Onde se pode encontrar os vossos trabalhos expostos?
José d’Almeida – Para além dos espaços online tivemos há pouco tempo uma exposição na galeria de S. Bento. Estiveram expostas. E transitaram algumas das obras para uma galeria, porque nós trabalhamos em parceria, por vezes, com o Centro Português de Serigrafia, que abriu as portas, digamos assim, tornou-se uma porta aberta neste Mundo da Fotografia que está a dar os primeiros passos cá, em Portugal, em termos de projecção. Abriu uma pequenina porta à Fotografia e tem, para além da reprodução de serigrafias, de gravuras, também tem Fotografia. Então abriu-nos as portas e nós, neste momento, há uma das galerias que eles têm, o CPS, não só no CCB mas também nas Twin Towers e então temos lá expostas algumas fotografias de grande formato. Hoje em dia a Fotografia… Não quer dizer que tamanho seja documento, mas a Fotografia hoje vive num tamanho, digamos assim, XL. Numa dimensão generosa, uma dimensão grande e as nossas lá têm cerca de metro e vinte.
Maria Flores – Também temos algumas de pequeno formato. Paralelamente a isso temos umas edições CPS, também ali expostas em S. Bento, que é o CPS e ainda estão em aberto. São edições de 25 exemplares. Fizemos também um projecto novo, fizemos há pouco tempo, que foi a vídeo-instalação que esteve no Centro Comercial Alegro, o espaço ao cubo. Foi uma coisa nova que fizemos, uma experiência que também gostámos muito de fazer. Foi a mais recente.
José d’Almeida – Foi uma experiência muito interessante. É outro dos caminhos, é a tal coisa, porque a Fotografia realmente para nós é… Nós não somos fotógrafos credenciados. Não podemos dizer que somos fotógrafos. Nenhum de nós tirou o curso. A Maria tangenciou um bocadinho a fotografia analógica numa cadeira na faculdade. Mas concluir o curso e termos a credencial para sermos fotógrafos, não somos. Somos artistas plásticos que usam a Fotografia como meio de expressão. Hoje em dia, por várias razões, por uma questão economia-tempo. Os meios e os custos. A Fotografia surge como…
Maria Flores – Há um investimento, mas é um investimento de esforço e de tempo. Investimento em termos monetários não há. Só quando há repercussão para realizar. Enquanto que a Pintura é um investimento incerto. Tem que se investir primeiro para se existir.
José d’Almeida – E já envolve outro tipo de investimento. Se é mais rápido, se é mais fácil, se conseguimos fazer passar a mensagem, porque não fazermos uso da Fotografia? É nessa base que nós usamos a Fotografia. Usamos o meio digital também por uma questão de recurso e de economia. Não somos contra a Fotografia analógica, pelo contrário. Só que ela envolve certos custos, que hoje em dia boa parte das pessoas não consegue suportar. E então a Fotografia analógica é uma solução, tão legitima para nós como a Fotografia analógica. A Fotografia que nós fazemos serve, não raras vezes, como trabalho preparatório para a Pintura. Aqui novamente o abraço entre a Fotografia e a Pintura. Hoje a Maria pinta e tem quadros expostos. Faz exposições regulares no Casino do Estoril. E tem lá pinturas que tiveram como base fotografias.

6. Hoje em dia existe a ideia de que qualquer um é fotógrafo. Que opinião têm dela?
José d’Almeida – A democratização e a possibilidade de qualquer um, com um telemóvel… Aí está. Não somos fundamentalistas da Fotografia e não somos puritanos. Puritanos no sentido de, às vezes, a fotografia pode tecnicamente não estar perfeita. Boas fotografias são feitas com câmaras de telemóvel.
Maria Flores – Acho que temos de dividir. Fotografia é uma coisa e Arte é outra. E Arte pode ser feita através de vários meios. A Fotografia faz-se através de uma câmara. Uma fotografia pode ser um registo. Tu podes ser fotógrafo, qualquer pessoa pode ser fotógrafa. Tem uma câmara e dispara. É fotógrafo, usa a Fotografia. Outra coisa é ser artista que fotografa. Usa a Fotografia para fazer Arte, para criar alguma coisa. Aí está a grande diferença. Por isso é que, infelizmente, a Fotografia ainda não é considerada Arte. Precisamente porque qualquer pessoa pega numa câmara e fotografa. E é verdade… Qualquer pessoa e, inclusivamente, também podes dizer que és pintor. Aí já estamos a entrar num caminho onde entra também a crítica. Alguém tem que dizer que aquilo… Embora qualquer pessoa pode sentir-se no direito de achar que é fotógrafa, que é pintora, achar que é músico. Nós tentamos criar alguma coisa.
José d’Almeida – Na nossa Fotografia. Nós provocamos o momento. Nós criamos o momento para a Fotografia. Uma coisa é tu chegares, veres uma paisagem, e tirares uma fotografia. O momento fez a tua fotografia. Nós, ao contrário, criamos e provocamos a fotografia. Entramos num campo cénico. Num campo onde as coisas têm uma razão de ser e de existir dentro da própria fotografia. Fazemos a fotografia, não estamos à espera dela.
Maria Flores – Acho que é óptimo o facto da pessoa ter uma câmara. É óptimo, porque a pessoa pode ser impulsionada para fazer… Para criar. Qualquer pessoa pode experimentar e pode gostar e pode criar muita coisa.
José d’Almeida – É uma das coisas positivas que tem a Fotografia. E no nosso caso ainda é melhor ainda. Fazemos uma pintura, tem esse carácter de unicidade. Nós tiramos fotografias, claro que respeitamos as edições limitadas. Tiramos cinco edições daquela fotografia. O que quer dizer que cinco pessoas, que gostem da nossa fotografia, podem ter. Caso contrário, se fosse a Pintura, apenas uma pessoa. E era quase que um elitismo. Hoje democratizou-se mais, pelo carácter reprodutivo da própria Fotografia.

7. As vossas fotografias são construções imaginárias, um pouco surreais. É a uma maneira de expressarem a vossa opinião sobre a realidade?
José d’Almeida – É uma outra maneira de vermos a realidade. Cada um filtra a realidade à sua maneira, com os óculos que tenha. Nós, não raras vezes, entramos mais por esse Mundo mais onírico. Há um certo onirismo, um certo surrealismo, nas nossas fotografias. É um rumo. Porque de facto, se a gente quiser… tem de partir para esse Mundo. Tem de partir para o Mundo onírico. Se quisermos condensar numa imagem o pensamento. Nós registamos pensamentos. A metáfora, a analogia, usamos abundantemente. Hoje tudo é metáfora. E aí também vêm as tais ideias que surgem.
Maria Flores – Às vezes temos coisas que nos inspiram. Música, filme…
José d’Almeida – São ignições. Para a ideia. Ignição para a ideia e concretiza-se. Pode levar 5 minutos. Há alturas em que leva 5 minutos. Tenho fotografias com a Maria onde chegamos ao sítio onde temos de fotografar, paramos, fluímos o espaço e de um momento para o outro, é isto. Demora 5 minutos. São fotografias mais simples. Todas as outras fotografias partem dessa ideia simples, mas como temos todo um trabalho preparatório… Porque os objectos são feitos por nós. Muitas pessoas pensam que nós fazemos Photoshop. As pessoas são aversas, um bocado. Há uma resistência. A nossa exposição, nas nossas exposições, fazemos questão de incluir os próprios objectos. Se for preciso eu e a Maria andamos a fazer umas bolas, no Lugar das Quimeras. Estamos presos, agrilhoados aos nossos sonhos. E houve umas bolas que a Maria teve de fazer e um fato que ela teve de fazer. Toda essa fase de preparação pode ser morosa. Nós sentimos necessidade de levar os objectos para a exposição. As pessoas olham a fotografia e quando se viram olham os objectos. Há ali um contacto entre a Fotografia e a própria realidade.

8. Há 10, 15 anos, como era a Fotografia em Portugal?
Maria Flores – Era muito menos gente.
José d’Almeida – Era muito menos gente. Para um certa elite, obviamente. Ou pessoas bastante interessadas. Voltamos à velha história. O analógico era…
Maria Flores – Gastava-se dinheiro. Tinha de se comprar rolos. Não era como agora que qualquer pessoa pega e experimenta fazer.
José d’Almeida – Era preciso algum investimento. Muitos faziam. Eu na altura não me interessava por Fotografia. Mas tenho amigos meus que faziam. Era a velha casas-de-banho. As tinas… Mas fazia-se. Por carolice fazia-se Fotografia.

9. E hoje em dia?
José d’Almeida – Fotografia conceptual e Fotografia artística, há. Começa a dar os primeiros passos. E ainda bem.
Maria Flores – É assim, sempre houve. Mas agora com uma maior abertura de meios, começa a haver mais. Começa a haver mais gente e começa a haver mais pessoas com acesso a esta tecnologia. Apoios… Isso já é mais complicado. Primeiro é preciso que as pessoas tenham mente aberta para aceitar a Fotografia como Arte.
José d’Almeida – E nós vemos em Portugal que temos uma feira de Artes plásticas, temos a feira de Arte, mas é muito eclética. Vamos aqui ao lado, a Espanha, já há exposições, feiras, só de Fotografia. Mais específico.
Maria Flores – É difícil entrar na galeria de Arte em Fotografia. É um risco grande. É arriscado. Tem custos de produção. Também é muito difícil para as pessoas acreditar. Porque é reprodutível, não é uma peça única. Pode ser. Se nós quisermos, só fazemos uma reprodução daquela fotografia. Mas as pessoas ainda suspeitam. É preciso confiança. Saber que não se vai reproduzir mais.

10. E no futuro?
José d’Almeida – Isto é transversal a todas as Artes. Se a Pintura não tem apoios e as outras não chegam a ter apoios satisfatórios…Maria Flores – Mas já é muito bom por exemplo o concurso em Corroios. Que já é um apoio. Já é uma motivação. Há vários concursos de Fotografia que já são promovidos em Portugal, que são uma motivação e um certo apoio, estímulo para continuar a trabalhar. No futuro pode ser que haja mais e que continuem a apoiar.

Originalmente publicada na fendamel em 25/09/2009

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