Rapaz delirado

Moro na casa em frente da do senhor Lobo Antunes. Da minha janela consigo ler cada frase que escreve. Eu aceno-lhe e ele escreve: “rapaz não sabe acenar”.
Vai daí, mudo de casa. Vou para terras de Espanha. Quem vive ao meu lado? Senhor Saramago. Eu elogio o seu trabalho e ele tecla no computador: “rapaz não sabe elogiar”.
Malas feitas para um lugar onde seja apreciado. Eu e o senhor Sá-Carneiro frequentamos a mesma mercearia. Ofereço ajuda para levar os sacos e ele escreve na factura: “rapaz não aguenta com uns saquinhos”.
Lá vou eu outra vez. Vou no mesmo comboio em que vai o senhor Ary dos Santos. Fumo um cigarro à janela e ele escreve: “rapaz fuma como uma menina”.
Salto do comboio e rebolo colina abaixo. Rebolando comigo, senhor Castelo Branco. Lamento a sorte de rebolar para a morte e ele escreve: “rapaz não é convincente no lamento”.
Farto-me. Quero a opinião final. Volto a pegar na cabine do tempo do Sr. Who e vou à fonte. Mostro o meu melhor texto ao senhor Shakespeare e ele escreve: “boy writes like a two-year old”.
Deambulo perdido em ruas nocturnas e, encostados aos lampiões, os poetas olham para a folha branca sem nada para escrever.

Originalmente publicada na fendamel em 14/06/2009|João Cinda (pseudónimo)

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