Rossio

Estacou as duas patas e ergueu a crista. 7 horas da manhã num Rossio deserto e um galo orgulhoso. Lojas fechadas, um cão pulguento e o galo a cantar. “Não sabemos quem somos” escrito em tinta verde barata na parede do teatro e o galo ofegante a cantar. Carros a perder de vista, parados e mortos e o galo a esforçar-se num tom acima do seu alcance vocal. Uma mulher a fechar a porta à chave e o galo canta satisfeito. Um homem a subir as escadas do Metro, outro com um jornal na mão à espera do autocarro e o galo termina a actuação com aplausos e pedidos de regresso. Dois homens vêem-se e sabem que vão embater, mas continuam a andar o seu caminho. O autocarro que vai para o Sétimo Céu está atrasado, por isso as pessoas resolvem apanhar o que passa no Marquês de Pombal. Lá se fará ligação com outro, contando com 20 cêntimos de esmola a dar ao poeta de pala num olho e roupas antigas. Nas bancas os jornais guerreiam por alguém que os pegue e o dono lê a Playboy com um olho e vê as mãos suspeitas de quem passa com o outro. Os taxistas já mandam na estrada e fazem piões para cliente ver. Um empregado de uniforme vermelho e amarelo tenta ouvir os pedidos gritados pelos condutores, fritar o hambúrguer, saltar entre os carros até o entregar em mão e ainda receber o dinheiro, sempre com os bons-dias e os obrigados bem colocados na troca. Um olhar tímido, um sorriso sedutor e um adeus gritado num leve roçar de ombros. Um rapaz sem família nem amigos a distribuir panfletos, para os ir recolher depois do chão.
O autocarro em direcção ao Sétimo Céu chega à paragem. Mas já ninguém está de partida; o autocarro volta a partir vazio. O sonhador que se senta na calçada a desenhar vê-se cercado de pessoas. Olham para ele e esperam que sonhe por elas. 7 da tarde e o Sol a poisar. Entram no Metro, nos carros, nos autocarros, nos barcos, nos comboios e estão de novo em casa.
E o galo? O galo será servido numa travessa com batatas, para aprender a deixar as cantorias na capoeira, que isto de acordar é ingrato demais para repetir.

Originalmente publicada na fendamel em 19/04/2009

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