Espectáculo dos escondidos

– Arranjas-me um cigarro, bacano?
– Sorry. I don’t speak portuguese. I’m from Netherlands.
– Olha que bom para ti. Miúda, arranjas-me um cigarro?
– Já só tenho um.
– Está bem. É o que preciso.
– Pois. Mas eu queria fumá-lo daqui a pouco.
– Senhor! O senhor vai ter de abandonar este espaço.
– Então? Que te fiz eu, bacano?
– Está a mendigar. Por favor saia ordeiramente.
– É para já. Cambada de egoístas.
– Com certeza. Por favor saia.
Duas mãos ordeiras a agarrar o seu colarinho indicaram-lhe a saída do Hall. Do lado oposto está outra porta, que cerca de 10 pessoas esperam que abra.
Sentado numa cadeira está o holandês de mochila viajante. Escreve algo numa folha, olhando de vez em quando em seu redor. Talvez escreva um diário de viagem, para recordar no futuro. Na T-Shirt poeirenta, em letras amarrotadas e vincadas: Fuck You All!
A seu lado, uma rapariga de vestes pretas. A música estridente nos seus auriculares reclama-se banda sonora daquele momento, naquele Hall, com aquelas pessoas e esperando aquele espectáculo. Talvez não saiba porque usa aquelas roupas; talvez lhe escape a razão de ser gótica. Só sabe que agora espera a única pessoa que a entendeu. E com este pensamento aumenta ainda mais o volume dos seus gritos digitais.
Um casal de meia-idade, hippies quase convertidos, fala sobre os tempos vividos. Os tempos de cabelos longos e bigodes de engate. Os tempos das mudanças promissoras e da voz forte dos jovens. Falam de tempos mortos e da homenagem que lhes fazem neste Hall, esperando que a porta seja aberta.
Acabados de chegar, o jornalista e o fotógrafo incumbidos desta história mostram expressões diferentes nos rostos. O jornalista não consegue esconder a desilusão que o atinge, ao ver que o Hall está longe de ser considerado cheio. O fotógrafo não vê motivos para se coibir de verbalizar o descontentamento: “Isto é história? Agora faço estes trabalhos? Se não gostam de mim basta dizerem”; e com estes pensamentos altos vai fumar para a rua.
Por fim o ranger da porta chega aos ouvidos destas pessoas. Góticos, viajantes, aspirantes a escritores; velhos vividos e homens de fato e gravata. Alinham-se numa fila a começar na porta aberta. Vão entrando numa sala amarelecida pela luz fraca e sentam-se nos bancos do público. À sua frente, atrás de uma pequena mesa, um homem na casa dos setenta anos.
Enquanto os seus espectadores se acomodam e o fotógrafo regula a máquina, ele vai folheando o livro a apresentar, sorrindo por vezes.
– Olá. Muito obrigado por terem vindo. Para quem não sabe, isto é a apresentação do meu livro, Martes. Esta é a minha última apresentação. Depois de vinte e cinco anos a falar sobre o mesmo livro, penso ter chegado a hora de parar. Por isso, aqui e hoje, não conto que seja apenas o livro o assunto. Eu, o homem, também estou nas vossas perguntas. Sei-o e resolvi falar um pouco a nível pessoal. – disse o homem de casaco comido pelo tempo – Há vinte e cinco anos, quando bati a mil e uma portas para publicar este livro, estava já na fase final enquanto escritor. Até aí, sabia qual o meu destino. A escrita foi o meu jogo, o meu escape. Escrevi imensos livros entre os vinte e os trinta anos. Tudo me fascinava tanto, que me parecia um desperdício não o escrever. Não os tentei publicar. O tempo segredou-me mentiras na altura. Então cheguei aos quarenta. Amigos? Ninguém te ajuda quando és um escritor desconhecido. Mulher? Fui-me apercebendo que o escritor só pode ter uma. O seu primeiro amor. Quando ele te foge, escreves. – o homem fez uma pausa, tomando balanço para continuar. – Demorei cinco anos a escrever o livro que têm diante de vós. Já sabia que marcava o meu abandono da escrita. Depois de acabado livrei-me da máquina de escrever. Ao longo deste tempo, entre a publicação e hoje, falei milhares de vezes do Martes. Não me deu sucesso, nem dinheiro. E a imortalidade não se ganha com dez leitores. Mas enche-me de orgulho tê-lo escrito. Quando vi, durante estes anos, as pessoas que tinha atingido… Se tens 10 leitores, tão variados quanto podem ser, e sabes que os tocaste…
Sou feliz; e hoje, perante vós, sou o escritor famoso e reconhecido de casaco comido. Obrigado!
Lágrimas e olhares surpresos são a tinta com que o público se pinta. Um misto de felicidade e nostalgia pelo momento tão importante.
– Estou agora disponível a questões.
Tentando aclarar a voz triste, o jornalista tossiu um pouco. Inspirou fundo, olhou para as perguntas preparadas e rejeitou-as metendo a folha num bolso. Só uma pergunta o interessava desde a primeira vez que tinha lido o livro, aos vinte anos.
– Valeu a pena?

Originalmente publicada na fendamel em 15/03/2009

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