Guerra Vermelha

– General!
– Diz soldado. Que mensagem trazes da frente?
– Meu General, a batalha no Campo 3 está agora a tender para o lado inimigo.
– Impossível! E os reforços que partiram ontem em vosso auxílio?
– Meu General, quando os reforços chegaram, já grande parte das nossas forças tinha sido controlada pelo inimigo.
– Raios! Soldado, como está a moral das nossas tropas?
– Estão cansadas e assustadas. O inimigo está a tomar posições para nos impedir de fugir. Meu General; é uma questão de horas até perdermos o Campo 3.
– Por horas o Centro de Processamento de Matéria? Quem sabe, já o perdemos enquanto falamos. Soldado! Leva esta mensagem ao comandante das tropas: abandonar Campo 3 o mais rápido possível. Poupar o maior número de soldados. Levá-los para os Campos 5 e 6.
– Sim meu General.
– Vai o quanto antes. O nosso futuro depende de ti, soldado.
O soldado saiu rapidamente da sala embatendo em militares de diferentes patentes. Todos se atropelavam numa correria desesperada para relatarem ao Campo 2 as frentes em que combatiam, esperando reforços imediatos e capazes. Um grande ecran acima do portão tentava retratar a situação da guerra: “40 000 homens morrem em emboscada no Campo 6”, “36 000 soldados são capturados no fim da batalha pelo Campo 8”, “O inimigo conquistou os Campos 5 e 6 ao final da tarde. Ainda se desconhece o destino dos 50 000 soldados aí posicionados”. Ninguém parecia ter tempo para aquelas notícias. Cada um estava preocupado com a respectiva batalha.
Com o bater de botas da continência, mais um militar se fez anunciar no Comando-Chefe.
– General!
– De que batalha vens, soldado?
– Venho do Campo 1.
– Finalmente se dignam a dizer algo. Quais são as ordens do Centro de Controlo?
– Evacuar Campos periféricos. Proteger a todo o custo os Campos 1, 2, 3 e 4. Tratar apenas os que possam voltar a combater.
– Isso é suícido! Só com esses Campos não duramos muito. Precisamos dos outros.
– General, são as ordens do Campo 1.
– Campo 1, Campo 1. Se não tivessem adiado tanto a porcaria da guerra. Já sabem sequer que inimigo é este?
– Não tenho mais informações General. Permissão para regressar.
– Isso. Vai-te embora, reles mensageiro.

Cada passada parecia espetar mais uma faca nas pernas exaustas do soldado. Só o alheamento do pensamento permitia aquela corrida.
Via e revia imagens sem sentido, relembrando onde estivera. Já conseguia ver o Campo 2 e tentou em vão correr mais depressa. Em vez disso, deu consigo a tentar levantar-se da queda. Sem força para mais, desistiu de se levantar. As imagens sem sentido iam-se perdendo, enquanto a dor finalmente reclamava o seu lugar. Dor tão dilacerante que já nem sabia se de facto a sentia, ou se as suas pernas o abandonavam.
A pouco e pouco o pensamento voltou a trazer-lhe as imagens à atenção. Imagens de um buraco imenso, onde antes estava o Campo 3. Nenhum vestígio de ali ter havido mais do que aquele vazio. O inimigo destruía com precisão milimétrica. Queimava ao redor do Campo, isolando-o de qualquer contacto com os outros Campos. Nada parecia fazer sentido. “O inimigo não passa de uma comichão; o inimigo cresce sem parar; o inimigo deixa de ser controlável pelas nossas forças; o inimigo mata os nossos melhores esquadrões, como se de moscas se tratassem; e agora? Agora até os Campos faz desaparecer, matando os seus próprios. E avança imbatível e insaciável. Amanhã atacará aqui, acabando com a nossa resistência num piscar de olhos. Amanhã estarei com certeza entre as fileiras da última batalha. Amanhã irei com certeza morrer”. Lentamente, o soldado ergueu-se nas pernas que não sentia. Com passos cambaleantes retomou a sua jornada em direcção ao Campo 2, para informar o Comando-Chefe do que tinha visto.

Ao redor da mesa oval sentaram-se militares e conselheiros. Muitos lugares continuaram vazios, dando um aspecto mutilado à assembleia.
A presidir estava um alto dignitário representando o Campo 1. À sua direita o General respondia pelo Campo 2. O Campo 3 não estava presente, nem muitos outros Campos. Ao todo estavam 10 Campos, de 56, à espera do início da assembleia das últimas decisões.
– Perdemos o Campo 3? – perguntou o dignitário.
– Hoje pela manhã. – respondeu o General.
– General, é verdade que mandou evacuar as tropas do Campo 3?
– Já não havia nada a fazer. Não recebem esse tipo de informações lá em cima?
– General, desrespeitou directamente a ordem de proteger o Campo 3?
– Salvei milhares de soldados de morte certa, senhor!
– Ao seu lado está uma cadeira vazia, onde deveria estar alguém do Campo 3. É assim que pensa vencer a Guerra, General?
– Estão preocupados com o Campo 3? Estão? E as dezenas de Campos que perdemos por vossa causa? – disse o General, com os olhos a ficarem mais vermelhos a cada palavra – Fardámos jovens soldados com chapéus e guitarras, com as vossas informações de que o inimigo não passava de um arruaceiro. E agora? Agora temos milhões de forças inimigas a prepararem-se para atacar o meu Campo.
Os dois representantes ficaram a olhar-se em desafio, implorando por um sinal para poderem materializar as ameaças ao outro.
Pelo Campo 4 vinha um jovem militar. Com impaciência na voz, rompeu o silêncio.
– Meus senhores, temos decisões a tomar. Se têm ódios antigos guardem-nos para depois – disse o jovem militar – Como disse o General, o inimigo já se prepara para a investida final. O Campo 4 não vai resistir até amanhã, como aliás, penso ser o caso dos restantes Campos aqui representados.
– Sim, tem razão – disse o dignitário, olhando para os militares ali reunidos – Meus senhores, o Centro de Controlo decidiu abandonar os Campos 7, 8, 10, 13…
– O quê? Não nos podem fazer isto – disse o militar do Campo 10 – Depois de tudo o que sacrificámos nesta Guerra? Não nos podem abandonar!
– É a decisão a que chegámos no Campo 1. Já só vale a pena defender os Campos 1, 2 e 4.
Os representantes dos Campos não incluídos neste grupo abandonaram imediatamente a sala. Tinham a difícil tarefa de reportar esta decisão nos respectivos Campos.
Na mesa enorme apenas 3 lugares continuaram ocupados.
– General, vai receber reforços dos Campos evacuados – disse o dignitário – Amanhã tem de defender o Campo 2 a todo o custo. Por nenhum motivo deve um só inimigo chegar ao Campo 1. Entendido?- Entendido. Segundo dizem já está morto de qualquer maneira.

O 1º batalhão dispunha-se na dianteira da formação. À sua frente só o inimigo. Milhões tão perto que se via estarem mais bem-alimentados. Nem Generais, nem oficiais, nem quem quer que seja se aproximava do 1º batalhão. As ordens tinham sido dadas há uma hora. Agora chegava o momento de estes soldados começarem o derrame.
– Então? Porque não começam? Vão em frente homens. É uma ordem! – gritava um enviado do Campo 1, lá longe, numa tenda improvisada.
Ninguém se olhava. “Para quê ver na cara do meu companheiro o medo que todos sentimos?”.
Numa bela formação atacante, 10 homens protegiam os flancos; 2 fechavam o batalhão um passo atrás; 25 concentravam-se num rectângulo; 2 tomavam a vanguarda dois passos à frente. Destes dois soldados dependia o inicio do ataque.
Por mais que soubessem ter de dar um passo, a visão à sua frente tinha-os entorpecido.
Os seus olhos não conseguiam ver os flancos do inimigo. Era bem possível estarem cercados e nem saberem. O inimigo podia estar neste momento a atacar pela rectaguarda e não ouviriam nada. O terreno que os separava do inimigo podia estar regado de gasolina e tinham de avançar de qualquer maneira.
– Vou dar o passo – disse o soldado da esquerda.
– Sim, é melhor. Damos juntos.
– Juntos. – disse o soldado a quem a coragem se escapava pela boca.
– Estive a pensar. Eles são milhões. Nós somos dois. Deve ser rápido, não achas?
– O quê? A morte?
– Sim.
– Eu não vou morrer. Ali a meio, onde a terra é um pouco acastanhada, vou pousar a arma, abrir os braços, ajoelhar-me e pedir que um tornado os leve.
Inconscientemente o soldado da esquerda deu um passo em frente. O outro soldado ficou a olhar ora para o seu companheiro, ora para o inimigo. Depois de analisar todas as escapatórias possíveis pela centésima vez, e ter chegado à mesma conclusão, deu também um passo em frente.
Avançaram lentamente, medindo cautelosamente a passada. O ponto acastanhado já estava perto.
– Pede também um terramoto. Parece-me que só com um tornado não vai lá.
Esquecendo-se de largar a arma e abrir os braços, o soldado prostrou-se no chão, juntando as mãos num aperto capaz de as asfixiar.
– Oh por favor, por favor. Peço, eu peço… – disse o soldado com quanta rapidez conseguia.
Um grito de dor perpassou pelas fileiras. O bater metálico das armas no chão chegava de ambos os lados. Oficiais, soldados, Generais, todos caíam com uma dor canibal nos corpos. Corpos que definhavam em instantes. Soldados fortes e robustos ficavam pequenos montes de podridão em segundos.
Os milhões do outro lado caíam como peças de dominó. A própria terra que pisavam balançava e abria buracos enormes.
Tudo estava a morrer. Era um campo de batalha após o combate, com mortos por todo o lado, sem que uma única arma tenha morto alguém.

*
– Segundo a ficha médica, já removemos o estômago e as mãos. Já demos todos os medicamentos que existem. Em pouco tempo a bactéria ataca o coração. – disse o médico à família da doente – Penso que chegou o momento de desligar a máquina.O sinal sonoro ecoou pelas paredes do hospital por dias.

Originalmente publicada na fendamel em 09/02/2009

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